Pitangueiras e cerejeiras

Após tantos meses, a madrugada encheu-se de chuva e relâmpagos. Chuva média, fria, insistente. A manhã surgiu nublada, atravessada por aragem mansa. Os termômetros deram pequena trégua. Bem-vinda trégua.

No quintal de minha casa, a grama cobriu-se de pétalas brancas. Graças à chuva, a pitangueira que eu plantara quando comprei a casa despiu-se de parte das flores brancas que a enfeitam nessa época de florada. Mesmo assim, diminutas abelhas, de dorsos raiados de amarelo e preto, sobre ela brincaram nas primeiras luzes do dia. Da cama, pude ouvir o zumbido denso das abelhas enquanto sonhava com o pé carregado de pitangas maduras.

Pitangueira no quintal do autor do autor do blog.

Qualquer manhã pode ser surpreendente. Tudo depende de nossos olhos livrarem-se rápido da areia acumulada no mourejar da vida. Tudo depende da vontade de experimentar frutas de época.

Fiz questão de plantar uma pitangueira no meu quintal, porque as pitangas, além de bonitas, dão sumo excelente. Escassas na minha infância, as pitangas têm lugar especial nas minhas preferências. Rego minha pitangueira zelosamente, faço a poda de seus galhos, passo horas bolando jeito de apanhar, sem amassar, as pitangas que crescem nas pontas mais altas da árvore. Quando a safra é volumosa, preparo com paciência de Jô muitos frascos de suco de pitanga. Cheguei até a distribuir alguma coisa para os amigos. De modo que hoje, envelhecido junto com a pitangueira que plantei, não consigo crer na minha casa sem ela. Nenhum machado vai derrubá-la enquanto eu estiver lúcido.

Bem ao lado do pé de minha pitangueira, há pequeno lajeado quadrangular. Construído com apuro artesanal, faz tempo que ele não funciona como base de uma ducha. Ao invés, tornou-se a mesa diária de banquete posto, logo pela manhã, para os pássaros que freqüentam os céus do meu espaço aéreo. Espalho uma mistura de milho triturado, alpiste e painço sobre o lajeado, com movimentos estudados, mas sem a precisão dos horários dos trens suíços. De um lado e de outro do lajeado, sob a sombra da pitangueira, vasilhas de cerâmica – que me parecem demodês – têm água trocada toda manhã. Abastecem os visitantes, matando-lhes a sede. E oferecem também a chance de bom banho, quando o sol está escaldante. Nesse pedaço de pedra de meu quintal, recebo pardais, rolinhas, tizius, assanhaços, joãos-de-barro, bem-te-vis e sabiás-laranjeira.

A poucos metros de minha pitangueira, debaixo de um puxadinho de telhas que abriga mesa de madeira e ferro, ao estilo inglês, e uma cadeira de balanço com assento de pano grosso de algodão, acomodo-me dia após dia para ler os jornais. Um olho nas notícias, outro nos passarinhos que pousam no lajeado e na pitangueira. Nessa cerimônia se gastam minhas manhãs, quase inteiramente. O tempo que sobra serve para regar as plantas e as flores, para pensar nas montanhas, olhar pro céu e o sol entre as nesgas das árvores e dos beirais dos telhados, para listar as tarefas do dia.

Ao redor da pitangueira do meu quintal, ancora-se a rotina de minha vida. Como não há identidade individual sem a reiteração contínua de certo número de rotinas pessoais, o que e sou em parte tem a ver com as coisas que me oferece a pitangueira plantada no meu quintal. Sombra, frutos, balanços suaves, zumbidos de insetos, cantos de aves, beleza de flores derrubadas pelo vento mais forte ou pela chuva fertilizadora.

Somente agora tomei consciência de meu débito para com a pitangueira existente no meu quintal. Confesso que eu a plantei movido apenas por razões práticas – queria comer pitanga no pé todos os anos. Mas a árvore, sem fazer alarde, cresceu e adquiriu natureza mais abrangente. Transformou-se em símbolo, referência, abrigo da alma. Atrai passarinhos, e a mim também, tão frágil sou como esses bichinhos de pena. Mormente quando está florida, coberta de branco, a pitangueira do meu quintal faz figura de bandeira de paz. E vale tanto quanto um bosque de cerejeiras japonês.

Minha pitangueira pode ser cartão postal.

Por Marcos Lobato Martins, 17 de setembro de 2008.  6 Comentários

6 respostas para ' Pitangueiras e cerejeiras '

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  1. Cristiane escreveu,

    em setembro 18th, 2008 às 21:46

    Fiquei imaginando a sua pitangueira toda verde depois destes lindos dias de chuva (adoro chuva). Outro dia, a moça da previsão do tempo dizia que “faria mau tempo” no sul de Minas, com um semblante carregado e pesaroso, e eu pensei comigo: “fará é tempo bom! Tempo de chuva, tempo agradável de ar puro, folhas verdes e terra molhada”. Sempre que chove sinto o prenúncio de coisas boas.

    O autor do blog é privilegiado por ter um quintal assim, uma pitangueira a oferecer-lhe frutos, pássaros cantores e o silêncio delicioso da natureza. Também tive um quintal assim na minha infância, as frutas que me fartavam vinham das mangueiras enormes, do abacateiro, da jabuticabeira, da goiabeira e até de um pé de jatobá (acho que nunca mais comi jatobá).

    Bela crônica! Ela me fez rememorar os prazeres da infância.

  2. Ferriól Cabanas escreveu,

    em dezembro 10th, 2008 às 09:24

    Parabéns, Marcos.
    Pitangueira é marco na minha infância.
    Atualmente moro em Belo Horizonte e na minha rua uma santa alma plantou inúmeras, que oferecem-se de graça e com graça seus maravilhosos frutos.
    Colhi e desfrutei delas neste outubro/novembro.
    Algumas sementes guardei. Quatro plantei. Floresceram.
    E agora, todos os dias, rego, cuido e observo.
    Já despontaram as primeiras folhinhas, que me enternecem, como que numa volta a reflorestamento da minha feliz infância, quando muito conversava com plantas e animais. Coisas que voltei a praticar.
    Grande abraço. Feliz Cidade. Pra ti. Pra nós.
    P.S.Conheça um pouco dos meus escritos: http://fcabanas.blogspot.com/

  3. Dimas Santos escreveu,

    em dezembro 12th, 2008 às 21:01

    quanta beleza nessas suas palavras…
    aqui também estamos curtindo muito a chegada:
    primeiro dos assanhaços azuis, depois os esverdeados, depois sabiás, depois pardais, agora bem-te-vi que estão vindo comer banana…
    parabéns pelo seu quintal e pintangueira…

  4. Sonia Silva escreveu,

    em fevereiro 26th, 2010 às 18:39

    Amigo linda cronica a sua ;tambem tenho uma pitangueira e uma jabuticabeira em vaso que carrega muito e é a minha alegria fico feliz por ver que tem amigos que como eu adoram vrs no quintal os passarinhos com seu camto que encanta .abraços

  5. Irma Cunha de Assis escreveu,

    em outubro 27th, 2010 às 11:28

    Olá Sr. Marcos! Aqui estou encantadadaaa com seu terno e humano texto! estava buscando informações sobre pitangueira e me surpreendi com tantas coincidencia de gostos disfrutamos eu voce e as outras pessoas que escreveram seus comentarios aqui. acabo de alugar um espaço para montar meu atellier e aí tem uma pitangueira que está enfermita coitadinha, então me dediquei a buscar informções sobre esta planta nessa marvilhosa coisa chamada internet. essa pesquiza se transformó em horas lendo seus textos…. Felicitações, siga assim!! obs. adorei sua casa, suas fotos de passarinhos (tambem tenho a mania de fotografa-los..adorei tudo! Bonita profissão a do Senhor.DTB.

  6. Helder Carvalho escreveu,

    em outubro 27th, 2010 às 22:00

    Caro Marcos

    Cheguei ao seu blog por acaso. Estava procurando sobre o cultivo de pitangueira! O texto é muito bonito! Além de gostar muito de pitanga, temos o gosto pela História em comum!
    Seu blog está nos favoritos!

    Abraço

    Helder

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