O queijo artesanal mineiro tem inimigos poderosos

Há gente que daria a vida por uma caneca de café forte e um pedaço de queijo Minas no desjejum. Outros consideram insuperável a sobremesa doce de leite com queijo Minas, ainda mais se for saboreada na cozinha de velha fazenda no interior das Alterosas, bem ao lado do fogão de lenha. O queijo mineiro e a cachaça de alambique tornaram-se símbolos identitários, ícones da tradição. No caso do queijo, as variações regionais são marcantes: há o queijo do “Serro”, o queijo “Canastra”, o do “Alto Paranaíba”, o de “Araxá”, etc. A cachaça parece associada a processos artesanais de produção menos diferenciados espacialmente.

Banca de comercialização de queijo minas, como há milhares no estado.

Eu mesmo não sou grande apreciador dos queijos brancos mineiros. Todavia, isso não me impede de reconhecer a importância cultural e econômica que os queijos artesanais possuem em Minas. Estima-se que entre 20 e 25 mil famílias se dediquem à produção artesanal de queijos. Há diversos municípios mineiros que dependem significativamente da fabricação tradicional de queijos. Razão pela qual o alerta do colega José Newton Coelho Meneses, professor da Escola de Veterinária da UFMG, deveria ser escutado por todos os mineiros. José Newton publicou artigo no “Estado de Minas”, no último dia 20 de setembro, denunciando que o governo brasileiro está propondo legislação específica hostil aos queijos artesanais. Legislação embasada em dois pressupostos discutíveis. O primeiro é o de que seria impossível controlar a sanidade do queijo mineiro artesanal, o que ameaçaria os consumidores. O segundo é a crença, arraigada na tecnocracia dos ministérios, de que a produção industrial deve ser almejada porque seria ideal.

Quanto ao primeiro pressuposto, José Newton Coelho Meneses lembra que, entre os especialistas, existe consenso de que o controle da brucelose e da tuberculose nas fazendas produtoras e a vigilância sobre a qualidade da água seriam suficientes para garantir a sanidade do queijo artesanal. Ademais, José Newton assevera que os próprios produtores, interessados na valorização comercial do produto, têm dado maior atenção aos cuidados com higiene no fabrico do queijo e na alimentação do gado. Desse modo, não faz sentido supor que é impossível controlar a produção familiar artesanal de queijo. Até porque podem ser adotadas práticas de controle da qualidade e da origem dos produtos – os DOCs (Denominações de Origem Controlada) – a cargo das associações de produtores e dos municípios. O segundo pressuposto, por sua vez, escamoteia, por um lado, que o queijo artesanal é alimento nutricionalmente rico, por ser vivo, o que não acontece com o produto industrial em razão da pasteurização que é parte do processo fabril de produção dos lácteos. Pasteurização que, por si só, não garante a sanidade/qualidade dos queijos industrialmente fabricados. Por outro lado, o argumento pró-industrialização desconhece que o ofício artesanal de produção do queijo mineiro é um patrimônio cultural. Isto é, está fundado em valores, saberes, representações sociais e significados caros aos mineiros do interior e à economia familiar regional. A fabricação artesanal do queijo está relacionada com uma memória que se quer preservar. Aliás, foi José Newton quem elaborou o parecer técnico que possibilitou ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tombar oficialmente o modo de fazer queijo artesanal mineiro.

Portanto, o colega da UFMG está correto ao concluir que há incoerência gritante “entre o que propõe um governo de cariz popular, de opção pelo desenvolvimento sustentável e em prol da economia familiar e essa proposta legal que embute, com subterfúgios, além de intenção corporativista e reducionismo tecnicista, o extermínio da produção artesanal do queijo em Minas”. Muitos setores governamentais têm dificuldade para compreender os novos parâmetros da discussão sobre desenvolvimento territorial, para pensar novas – e mais generosas – maneiras de colocar em relação a tradição, a pequena produção, o mercado e o Estado. Especialmente no caso da agricultura, a tecnoburocracia governamental apegou-se demasiadamente aos modelos que preconizam o esforço de crescimento intensivo da produção, presentes em programas regionais implementados desde os anos 1970, tais como: POLONOROESTE, POLOCENTRO, PROVARZEAS, PRODECER e PADAP. O “mainstream” pensa a modernização da agricultura como a combinação de especialização produtiva, crédito barato, mecanização e assistência técnica para grandes unidades voltadas para atividades de exportação, em detrimento da policultura integrada e polivalente, da pequena produção. O agronegócio que se deseja financiar e estimular é grande e especializado, facilmente inserível nas cadeias produtivas da indústria (de insumos, equipamentos e processamento de produtos agropecuários). Nesse diapasão, processou-se a ocupação dos cerrados mineiros, com café, soja e cana. Agora, é a vez da agroindústria dos biocombustíveis ocupar largas fatias de terras nas Minas Gerais.

Aqui nas Alterosas, a pequena produção agrícola artesanal e familiar, ainda relacionada a capiaus pobres e atrasados na cabeça de muita gente da cidade, mas que é suporte de identidades regionais e saberes seculares, segue deixada à margem. Ao contrário do que fazem os programas europeus de desenvolvimento territorial.

Por Marcos Lobato Martins, 24 de setembro de 2008.  11 Comentários

11 respostas para ' O queijo artesanal mineiro tem inimigos poderosos '

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  1. em setembro 26th, 2008 às 12:23

    O uso de processos tipicamente industriais como a pasteurização ou o embalamento dos produtos sem contato humano, não faria com que formas tradicionais de fabrico sejam destruídas. E isto não está necessariamente vinculado à destruição de um costume historicamente importante, qual seja, a forma tradicional (artesanal) e, conseqüentemente, o fim mesmo dos produtos que lhe são resultantes. É possível argumentar que a adoção de técnicas de produção modernas nomeadamente no que diz respeito à segurança sanitária sem se perder a característica tradicional, seja no controle das etapas de produção ou na adição de novas fases antes alienígenas ao costume tradicional, visa não destruir um costume ou uma forma de produzir bens característicos de uma terra; pelo contrário, é possível, talvez, que a resultante mais provável do uso de novos meios de produzir, adicionados aos já existentes, faça com que os bens originados por certa atividade tenham a mesma característica asséptica dos que são produzidos em larga escala industrial.

    Neste ponto, há em parte razão, pois a adição de novas técnicas de produção vai contra o espírito tradicional, obrigatoriamente conservador, mas por outro lado lhe abre novas oportunidades: seja adaptando certos itens produzidos às normas de segurança sanitária aceitas universalmente, portanto abrindo-os a novos mercados e, também, garantindo que a população que dele se alimenta não seja vítima de falhas do processo de produção.

    A associação de produtores com vistas a garantir a origem do produto já é em parte a adição de uma forma outrora alienígena a um modo tradicional de produção. E o esforço do poder central em assegurar a segurança sanitária é um objetivo não conflitante com o dos produtores, tampouco caricaturalmente industrializante. Ao mesmo tempo, as linhas de crédito e microcrédito para o produtores estão abertas, não impedindo, assim, que normas sanitárias sejam adimplidas à fabricação de bens artesanais exatamente porque não se perderão suas características básicas — o queijo gorgonzola, produzido desde o século IX de nossa era, é exemplar a esse respeito.

    Esboçado nestes termos ou mesmo aplicado dessa maneira, talvez, a ação do governo central seja consoante com o interesse dos produtores artesanais. E isto pode ser observado, por exemplo, com atual estado da produção de cachaça nas Minas Gerais: outrora vinculada aos arquétipos do ‘bebum’, do ‘cachaceiro’, entre outros, atualmente ela é um dos itens de consumo conspícuo do apreciador dos mais finos destilados, sem que, entretanto, seja furtado ao brasileiro a possibilidade de adquirir uma boa cachaça mineira por um módico custo.

  2. Cristiane escreveu,

    em outubro 5th, 2008 às 21:23

    Eu adoro os queijos brancos mineiros, quanto mais novinho, melhor. E uma caneca de café forte com queijo minas pela manhã sim, é muito bom!

    A importância econômica dos queijos artesanais é inegável. Conheço famílias em Itambé que sobrevivem graças ao queijo vendido em feiras em Itabira e cidades circunvizinhas.

    Há, ainda, e não menos importante, a questão da identidade que você cita. Ah, o governo e suas leis nem sempre democráticas.

    Abraços,

  3. Juraci Rodrigues do Nascimento escreveu,

    em outubro 5th, 2008 às 22:08

    Boa noite, sou de Cuiabá/MT, preciso saber o valor de um kilo de queijo minas frescal e curado e preços de outros tipos de queijos. Produtos que me ofereça margem de lucro. Qual o sistema de transporte se possível oferecer preços colocados aqui em Cuiabá/MT.

    Juraci

  4. Lilia Deuza escreveu,

    em fevereiro 25th, 2009 às 16:25

    Boa tarde!!! Senhores,

    Gostaria de saber como fazer para trazer os produtos de vocês para o estado do Pará,
    Sou mineira e estou morando aqui em Belém sou representante comercial e aqui tem muitos supermercados até maior que o Carrefour, e vê que aqui em Belém não tem estes produtos e gostaria de saber se vocês têm interesse de colocar no mercado do Pará.

    Qualquer dúvida estou à disposição

    Atenciosamente

    Lilia Deuza
    (091) 8817-5971

  5. André Silveira Kasten escreveu,

    em maio 7th, 2009 às 14:08

    Senhores,

    Tenho uma empresa aqui na Região Metropolitana de Campinas que representa produtos alimentícios. Tenho cerca de 1.000 estabelecimentos cadastrados, que entendo que podem se tornar consumidores do excelente queijo tradicional de Minas. Vocês têm interesse em uma parceria? Se sim, quando e como poderemos conversar?

    Atenciosamente
    André Silveira Kasten

    (19) 8111-0666
    (19) 7819-7263

  6. Antonio Carlos de Moura escreveu,

    em setembro 13th, 2009 às 21:59

    Gostaria de ter uma loja com produtos de Minas aqui em Belem e gostaria de saber como faco para comprar e trazer os produtos de minas,tais como. Queijos,Doces,Lngucas,Torresmos,Cachacas,etc.

  7. andre vidal escreveu,

    em abril 14th, 2010 às 16:38

    eu particulamente amo queijos deminas principalmente da reserva de minas queijos da fazendinha que sao diversos reino provolone trança palito sem comentario eu gostaria de saber como comprar e trazer os produtos de minas para brasilia

  8. rosana g.dos santos santi escreveu,

    em setembro 30th, 2010 às 20:31

    OLAAA FAÇO QUEIJO ATESANAL..DE PESCOSINHO,CABACINHA OU PORUNGA ….HOJE O QUILO ESTA 15…REIAS.

  9. Rogério dos Reis Pereira escreveu,

    em outubro 28th, 2010 às 22:03

    Moro em Resende estado Rj, Gostaria de vender seus produto na região se for do seu interece aguardo contato.

  10. ROSA VANZEI escreveu,

    em janeiro 17th, 2011 às 15:31

    boa tarde, sou da empresa coalhopar, temos fermentos para todos os tipos de queijos e iogurtes, temos coagulante liquido e em pó, e coalhos bovino liquido e em po, todos os coalho e coagulante para uso em pequena quantidade de leite e tambem para muito leite, gostariamos de fazermos uma parceria, em fornecer produtos para vossa empresa, e tambem podemos marcar visitas, tecnicas sem assim preferirem.

    att

    rosa
    msn:rhayzza2009@hotmail.com
    fone 44 3656 8800

    aguardamos retorno

  11. Jean Alvimar escreveu,

    em março 11th, 2011 às 13:27

    Lamentável o artigo do professor da UFMG.
    Não podemos apenas nos ater as doenças graves como brucelose e tuberculose. Quem aqui está disposto a uma intoxicação por endotoxina, listeria mono ou qualquer outra?
    Espero que uma lei federal suprima essa decisão daqui de MG.
    Abraços

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