Chichico Alkmim e a fotografia em Diamantina
Não se pode perder esta exposição de fotografias antigas. Quem estiver em Belo Horizonte ou por lá passar entre a próxima semana e o dia 20 de setembro, deve arranjar um tempinho para ver a exposição da obra fotográfica do pioneiro diamantinense, Chichico Alkimim (1886-1978). O local será a galeria da Escola Guignard (UEMG), situado na Rua Ascânio Burlamarque, 540, Mangabeiras.
Chichico Alkimim era um artista da luz e da composição de imagens, muito mais do que um fotógrafo profissional que atuou em Diamantina e arredores entre 1907 e 1955. Ele deixou mais de 5 mil negativos em vidro que apenas recentemente foram organizados e começam a ser estudados por historiadores. Retratos, cenas do cotidiano no antigo Tijuco, paisagens, arquitetura, imagens de anjinhos (crianças falecidas que as famílias levavam para serem retratadas em seus caixõezinhos), tudo produzido com a mais elevada sensibilidade e elegância. Trabalhando sozinho, Chichico criou uma crônica visual da gente de Diamantina, combinando cliques feitos em estúdio e chapas batidas ao ar livre. Uma crônica impressionante, cuja beleza em preto-e-branco é arrebatadora. Para os especialistas, a boa composição, as texturas, a luz, o capricho e a delicadeza das fotografias de Chichico Alkmim são marcas fundantes do seu estilo, forjado no relativo isolamento das altitudes do Espinhaço Central.
A maestria de Francisco Augusto Alkimim, menino nascido em Bocaiúva e que morou em fazenda até a adolescência, é uma dessas flores improváveis que o interior mineiro desabrocha vez ou outra, contra todas as circunstâncias. Ao mudar-se para Diamantina, Chicico interessou-se pela fotografia que lhe fora apresentada por um padre de nome Manuel Gonjalos e por Passig. Numa curta passagem por Belo Horizonte, trabalhou com o pioneiro Bonfioli. A partir de esforço autodidata, lendo manuais de fotografia, aperfeiçoou sua arte. Em 1913, encontra-se o primeiro registro do estúdio de Chichico Alkimim nos Livros de Impostos da Câmara Municipal de Diamantina. Nas duas décadas seguintes, ele foi o único fotógrafo regularmente estabelecido na cidade.
Para fazer seu trabalho, Chichico Alkmim sempre lançou mão de uma máquina de fole 13×18. O material era adquirido no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, e levado em lombo de burro para Diamantina até 1914, ano no qual a ferrovia alcançou a cidade. Os registros de casamentos, batizados, funerais, formaturas, festas populares e religiosas, as fotos de famílias e de pessoas destacadas compõem acervo iconográfico riquíssimo para os estudiosos do Norte Mineiro na primeira metade do século passado.
Chichico deve ser visto como um inigualável artista popular mineiro, que se apropria de uma tecnologia moderna no alvorecer do século XX para expressar os valores, os costumes, as belezas e os sofrimentos do povo diamantinense. Sua fotografia tem enorme força estética. Contudo, como estudioso da trajetória histórica de Diamantina na virada do século XIX para o XX, também me chama atenção o modo específico como Chichico se relacionava com os meios técnicos disponíveis durante o período de sua vida profissional.
O ateliê do mestre diamantinense ficava em sua própria casa. Nele havia mesa e espelho. Nas paredes laterais, grandes janelas com cortinas que controlavam a iluminação. No fundo, uma viga de madeira sustentava fundos cenográficos de panos. Havia ainda tapetes, cadeiras, pedestais, cavalinho de madeira e outros objetos. O laboratório ficava no porão da casa, contendo uma banheira com revelador, outra com água e uma terceira com fixador. Ele próprio fabricava com sais e uma balança as substâncias necessárias para revelar as chapas. Chichico retocava negativos com um líquido chamado “matolém”. Para imprimir as fotografias, colocava papel virgem sob os negativos dentro de um chassi, expondo-o a um facho de luz do sol proveniente de um pequeno buraco na janela. Assim ele trabalhou até os anos 1950, com a velha máquina fotográfica já deteriorada e obsoleta, enfrentando dificuldades para obter os materiais de que necessitava. Os negativos de vidro, os sais manipulados para fazer revelador e fixador e a máquina de fole 13×18 não cederam lugar aos avanços técnicos notáveis que a fotografia experimentou entre as décadas de 1910 e 1950.
O que significa dizer que Chichico Alkmim nunca sentiu necessidade de acompanhar, por assim dizer, o “estado da arte” na fotografia. Os recursos do início do século XX foram empregados décadas a fio, enquanto foi possível ao artista encontrar os insumos e promover pequenos ajustes na técnica que aprendera. Não se tratava de teimosia ou de tradicionalismo de Chichico, porque esta mesma atitude dominava diversos ofícios na Diamantina da primeira metade do século XX. Equipamentos e processos que chegaram à cidade nas décadas de 1890 a 1920 foram empregados até a completa exaustão, recebendo modificação incrementais que lhe garantiam maior sobrevida. Assim, por exemplo, o colega James William Godwin Jr. estudou o caso da máquina tipográfica manual francesa instalada no asilo Pão de Santo Antônio, cuja fabricação remontava aos anos 1880. Esta impressora funcionou até a década de 1980, produzindo o periódico católico “Pão de Santo Antônio”; nos anos 1960, foi acoplada a um pequeno motor elétrico que movia a prensa por meio de sistema de correias, tornando mais leve o trabalho dos operadores. Tipos e clichês de ferro que se quebraram ou desgastaram foram substituídos por similares esculpido em ossos de bois pelos artesãos da tipografia. Dessa forma, no essencial, os jornais ainda eram montados e impressos em Diamantina nos anos 1980 da mesma forma como se fazia no final do século XIX. O que era de ponta ficou obsoleto, mas não foi descartado. Ao contrário, recebeu adaptações e continuou sendo usado. Coisas bastante peculiares, que talvez possamos chamar de “tecnologias do atraso”…
Outro exemplo curioso desse processo de apropriação regional das tecnologias ditas modernas é a Ponte do Acaba Mundo. Uma ponte com estrutura em arco, feita de ferro e concreto, construída sobre o rio Jequitinhonha para ligar Capivari e Curralinho. Inaugurada no início dos anos 1930, com missa e banquete sobre a sua plataforma, reunindo o Agente Executivo Municipal, o Bispo e o Comandante do Terceiro Batalhão de Polícia, a ponte moderníssima fora projetada para vencer obstáculos existentes numa trilha de tropeiros. Caravanas de muares foram as beneficiários diretas da obra monumental. Obra de engenharia de ponta associada ao sistema de circulação colonial, que resistiu em Diamantina até os anos 1960.
Para os historiadores, são justamente esses modos peculiares de assimilação das tecnologias que colocam problemas de pesquisas relativos às trajetórias regionais de desenvolvimento, aos nexos complexos entre inovação e modernização, às tramas intricadas de continuidade e mudança que sustentam o evolver do imaginário e da cultura material.
Por Marcos Lobato Martins, 17 de agosto de 2008. 3 Comentários



em agosto 18th, 2008 às 09:37
A Dayse (Lucide) tinha um projeto de estudar a respeito do Chichico Alkimim, não sei como se ela deu prosseguimento a ele.
Obrigada pela dica, vou ir lá ver esta exposição sim. Pensei que o Alkimim fosse do final do XIX e início do XX, igual o Brás Martins da Costa, de Itabira. O Brás também deixou negativos em vidro, mas em bem menor quantidade do que o Alkimim.
As fotografias antigas são como “frestas” que se abrem do passado e uma boa fonte nas mãos do historiador.
Abraços,
em setembro 14th, 2008 às 23:05
Olá Marcos,
Gostei muito do seu blog!!
Especial atenção dediquei a esse texto (claro!. Marcos quero acrescentar apenas que em algum momento do início do século XX até os anos 50 o Chichico chegou a comprar chapas de vidro já emulsionadas, vidas do RJ e BH.
Quero aproveitar para dizer a CRISTIANE que vou dar continuidade ao meu trabalho (doutorado) com o Acervo Chichico Alkmim (atualmente sob a guarda da FAFIDIA/FEVALE/UEMG).
Hoje, a quantidade exata de negativos em vidro no Acervo é 5.349 (como o Chichico utilizava um mesmo negativo para fazer mais de uma fotografia, a quantidade de ímagens gira em torno de 13.000). Os negativos estão assim distribuídos:
DESCRIÇÃO – QUANTIDADE DE NEGATIVOS
Montagem 2860
Arquitetura 120
Mulher 433
Grupo de pessoas 801
Criança 534
Homem 452
Paisagem 54
Festa 10
Transporte 10
Reprodução 54
Diversos 21
Bom, vou continuar o meu passeio pelo blog…
Abraços.
Dayse
em setembro 22nd, 2009 às 21:32
Boa noite! Com este blog, gostaria de pedir ajuda, para os realizadores, pois estou fazendo um trabalho na escola, aqui em Minas Gerai mesmu, na cidade de Sabará, e o meu tema é a evolução das máquinas fotograficas, e eu gostaria de saber, se vocês poderiam me dar uma “luz”, uma força, me enviando banners, panfletos, fotografias de máquinas antigas ou até mesmo amostra das mesma.Seria de grande valia a sua colaboração.
Favor entrar em contato pelo E-mail
Desde já agradeço