Agosto, ipês amarelos e eleições.
No dicionário pode-se ler: agosto, do latim Augustu, é o oitavo mês dos calendários Juliano e gregoriano, com 31 dias. O nome homenageia aquele que fundou, de fato, o Império Romano, que se julgava divino, que destituiu Lépido e declarou guerra a Marco Antônio, derrotando-o na batalha de Accio, na Grécia. Não se sabe ao certo se Otávio – esse era o nome do figurão, sobrinho-neto de César – dormiu com Cleópatra, mas o Senado romano lhe conferiu os títulos de Augusto (Consagrado), Imperador (General Vitorioso) e Príncipe (Primeiro Cidadão do Estado). Por aí se vê que Maquiavel estava certo: o moço carrega pecado capital. Pode ter sido bom administrador, excelente estrategista militar e o maior símbolo do poderio romano. Contudo, Otávio Augusto matou a República não por acidente, mas de caso pensado. Matou o regime que, dada a variedade e a diferença do gênio de seus cidadãos, melhor e mais facilmente se acomodava às mudanças do tempo. Porque a Igreja Católica é uma monarquia, admira abertamente Otávio e o celebra no calendário.
Agora que as regras para as campanhas eleitorais ficaram mais restritivas, o mês de agosto e o mês de setembro são o que restaram para as propagandas, os comícios, as reuniões nas comunidades, bairros e distritos. Agosto, na verdade, ganhou importância renovada para os candidatos e os partidos. Nele se jogam cartadas decisivas na luta eleitoral: um bom começo pode ser a condição para a vitória. Aliás, em campanhas curtas, começar bem é imprescindível. Não há muito tempo para corrigir erros ou dar novos rumos para as campanhas. Agosto ficou, de fato, augustu para os políticos. Logo agosto, esse mês tão (mal) falado na boca do povo simples, inclusive da mineirada.
Agosto talvez seja um mês sui generis. Agosto sempre teve tragédias humanas em número espantoso. É isso que as pessoas dizem e as estatísticas corroboram. Há tantos infortúnios em agosto que existe quem proponha riscar o mês do calendário. Os mais versados em lógica sugerem algo distinto: fazer uma longa “ciesta” em agosto. Andar devagar, falar baixo, olhar com cuidado, até mesmo hibernar para ver se se evita acidente. Agosto tem fama de ser o mês preferido da Morte, o tempo em que ele é mais ativa. Nos piores pesadelos populares, a música terrível da foice ceifando o campo da vida inunda o mês de agosto. Que também é época de volta às aulas, depois de férias tão curtas que deixam insatisfeito o desejo de gozar a liberdade anárquica do tempo livre. Exatamente por isso, talvez, o mês de agosto seja o mês da Morte para milhões de estudantes e professores extenuados.
Agosto sempre teve muita raiva. Uma ira canina furiosa, molhada em baba elástica, com o rabo entre as pernas. O mês das tragédias é também o mês da hidrofobia, essa maldição quase bíblica. É o mês dos cachorros zangados que assustam as cidades pequenas e os bairros periféricos das metrópoles. Agosto sempre teve sacrifício de cães e operação zelosa da carrocinha. As crianças sentem pena do “melhor amigo do Homem” suspeito de estar com raiva, mas os adultos não. Estes crêem que não há espaço para comiserações: o sacrifício dos cães vadios é profilático. Quem teve que enfrentar as dolorosas injeções do soro anti-rábico concorda em gênero, número e grau. Cachorro doido é perigo danado, que grassa em agosto. Só cabe esconjurar esta ameaça e rezar para que setembro chegue logo.
Auge dos efeitos do inverno, agosto é chocho, feio, cinzento, época de águas rasas. E venta uma quantidade absurda. Vento forte, frio, que levanta pó sem piedade, de modo que o ar fica ainda mais seco, difícil de respirar. Agosto adoece os pulmões e as vias aéreas. De tanto ventar em agosto, o mês é próprio para empinar pipas. Os meninos tomam as ruas, as praças e os terrenos baldios em agosto, exibindo “surecos” descorados. Passam horas soltando papagaios, inventando manobras para dar vida nos céus aos conjuntos frágeis de varetas de bambu e papel de seda. Porém, como os meninos amam sobretudo a guerra, e se está no mês de agosto, logo ficam embriagados pelas laçadas. Anseiam o monopólio dos ares e, assim, com linhas cobertas de cerol preparado com ciência destrutiva, abatem os papagaios dos vizinhos. Hordas de moleques esquadrinham a cidade em busca dos troféus caídos do céu, abatidos à luz do sol. Os motoqueiros feridos pelas linhas de cerol são meros danos colaterais. Agosto é o mês dos caçadores de pipas, menos orgulhosos do que egoístas. Meninos incapazes de compartilhar mesmo o que é muito vasto.
Agosto também sempre teve floração dos ipês amarelos. Ocorre em agosto uma explosão de beleza singela, como se um gênio estético pulverizasse cor sobre o cerrado meio morto, suspenso à espera das primeiras águas. Esses ipês de agosto atraem e prendem os olhos. Se agosto necessitar de uma cor oficial, essa será o amarelo. Amarelo-ipê, protegido por lei federal. Ainda bem que já não se encontra homem que ousa derrubar um ipê. Agosto é tempo de ipês floridos, porque tudo – como afirma a sabedoria popular – tem seu lado bom. O lado bom de agosto é a floração dos ipês. Pena que o ipê é árvore afeita à solidão, que, por si só, não compõe aglomeração. E nem se alinha em fila, naturalmente.
Mas se engana quem pensa que agosto – que sempre teve tragédias, cachorros zangados, ventos e pipas e ipês amarelos floridos – é mês avesso a novidades. Não é. Agosto tem lá sua identidade. No entanto, esse mês tão falado acomoda novidades. Desde os anos 90, como se afirmou acima, agosto é mês de campanha eleitoral no rádio e na televisão, de caminhadas de candidatos pelas ruas das cidades, de carreatas e de comícios. Agosto é o início, de fato, da disputa por cargos eletivos a cada dois anos. De modo que santinhos, assombrações e lobisomens agora aparecem em agosto, e não na Quaresma. Povoam as telas de TV no horário de propaganda eleitoral gratuita. Agosto transformou-se em mês ambivalente, que faz o eleitor oscilar entre a depressão e a euforia, o desalento e a esperança, a apatia e a participação. O mês ficou repleto de jingles que viciam, tornou-se uma babel de propostas políticas anunciadas com alguma desfaçatez na sopa de letrinhas partidárias e no álbum de fotos de candidatos, no qual há nomes e cromos exóticos. Agosto é, recentemente, tempo de política. De maneira que se tornou mês de expiação dos pecados coletivos e de promessa de alguma redenção.
Desde que o eleitor, informado e orientado por espírito público, faça escolhas com os olhos postos no futuro, o mês de agosto pode ser auspicioso. Agora, agosto é mês republicano. Ironia da história: a democracia moderna inverteu o significado pesado, autoritário, do mês que recebeu o nome do imperador que sepultou as virtudes da República romana.
Publicado na “Folha de Pedro Leopoldo”, em 22 de agosto de 2008.
Por Marcos Lobato Martins, 22 de agosto de 2008. Comentários

