Outro homem simples do Vale do Jequitinhonha

Por volta do meio-dia de 9 de janeiro de 2007, deixei Araçuaí rumo a Novo Cruzeiro, 79 km ao sul de Araçuaí. Atravessei trechos da depressão do Jequitinhonha, no baixo curso do rio Araçuaí. Muita poeira e sol abrasador, céu azul sem nuvens – nenhum sinal de chuva. De ambos os lados da estrada, pequenas fazendas de gado salpicadas na caatinga. Mas a paisagem muda à medida que se penetra o vale do rio Gravatá. Vale que começa largo e gradativamente estreita-se, encaixotando o rio a montante do povoado de Alfredo Graça, antiga estação ferroviária. Espaço de transição, nesse vale a caatinga, o cerrado e a mata estacional compõem mosaico complexo, bem verdinho na estação das chuvas.

Já nas proximidades de Alfredo Graça, a atual estrada de rodagem aproveita trechos desativados da ferrovia Bahia-Minas, que ligou Ponta de Areia (Caravelas, BA) a Araçuaí. Alfredo Graça, Engenheiro Schnoor e Queixada foram estações que se tornaram povoados, hoje demasiadamente calmos, seguindo o ritmo dos bois e das roças.

No povoado de Queixada, a antiga estação da Estrada de Ferro Bahia-Minas abriga um botequim. Duzentos metros adiante da estação, situa-se a venda de Seu Antônio Geraldo de Souza Campos, que também é proprietário de pequenas fazendas ao redor do povoado de Queixada, distrito de Novo Cruzeiro. Na década de 1960, o Seu Antônio Campos foi vereador em Novo Cruzeiro e, dessa posição privilegiada, acompanhou a desativação progressiva da estrada de ferro. No ano de 1928, a Bahia-Minas havia chegado em Gravatá (nome antigo da cidade), tornando-se o principal empregador do município e orgulho da população local. A estação de Novo Cruzeiro era, tal como ocorreu em outras cidades interioranas, o ponto de encontro dos moradores da “rua’ e da “roça”, o lugar de chegada das novidades e notícias de fora, além de definir a distribuição do comércio e das casas – eram mais valorizados os espaços contíguos à estação. Todavia, no início dos anos 1960, a ferrovia estava prestes a ser desativada. O que acabou ocorrendo no ano de 1966.

Sr. Antônio Campos, comerciante e fazendeiro em Queixada, MG.
Sr. Antônio Campos, comerciante e fazendeiro em Queixada, MG.

Desde então, os moradores de Novo Cruzeiro nutrem saudosa memória dos tempos de auge da linha de trem, das marias-fumaças, do movimento na estação, dos turmeiros, maquinistas e agentes de estação. Ainda hoje, passados mais de 40 anos de desmonte da ferrovia, os desfiles de 7 de Setembro trazem para a rua principal – que se confunde com o antigo leito da linha – maquetes de estações, composições ferroviárias, pontilhões e caixas d’água. Em Queixada, com as portas de sua venda voltadas para a estação de Queixada, Seu Antônio Campos também rumina dolorosamente o fim da Bahia-Minas. Este é seu assunto obrigatório na conversa com visitantes.

O Seu Antônio Campos, alto, magro, cabelos brancos, rosto muito vívido e modos agitados, fala com eloqüência, expondo de forma incisiva suas opiniões. Como outros moradores que ouvi em diversas cidades do Vale do Jequitinhonha, ele está completamente descrente com a política local. Não vê os prefeitos apresentarem propostas sérias e bem articuladas, e diz que até mesmo a noção de “bem do povo” praticamente se perdeu nessas bandas e no país. O Seu Antônio atribui a decadência econômica de Novo Cruzeiro, e notadamente de Queixada, ao fim da Estrada de Ferro Bahia-Minas.

Segundo ele, nos anos 1960, o município era chamado de o “celeiro do Vale do Jequitinhonha” e chegou a ser o maior produtor de alho de Minas Gerais. As grandes fazendas da região produziam muito milho, arroz, feijão e criavam gado e porcos. Cada uma delas abrigava, em média, 60 famílias de trabalhadores rurais em suas terras. Cada fazenda possuía de 60 a 80 capados e havia propriedades que ostentavam rebanhos de mais de mil bovinos. As mais dinâmicas eram as fazendas do Sobrado, da Lagoa e do Borá, que também fabricavam expressiva quantidade de cachaça. Delas, praticamente restou a fazenda do Borá, voltada para a exportação de cachaça. As demias foram sufocadas lentamente pela perda da estrada de ferro, que as privou de ligação rápida e barata com os grandes centros consumidores.

Para Seu Antônio Campos, a Bahia-Minas era lucrativa. Havia carga em quantidade, riqueza produzida nas roças da beira da linha. O que faltou teria sido administração competente e republicana. A corrupção, a má administração e a politicagem dos chefes regionais teriam falido a ferrovia, que acabou desativada em 1966. Esses fatores, responsáveis pelo fim da ferrovia, já teriam surgido desde o momento de sua construção. Senão, raciocina Seu Antônio Campos, não se poderia compreender como a Bahia-Minas demorou tanto para ficar pronta. Ela começou a ser construída na década de 1890, chegou a Araçuaí somente em 1942, e acabou vinte e quatro anos depois.

Hoje, por causa desse absurdo, conforme Seu Antônio Campos, as fazendas no município de Novo Cruzeiro estão vazias, os moços migraram para São Paulo e as moças transformam-se em empregadas domésticas nas cidades de Teófilo Otoni, Governador Valadares e Belo Horizonte. Apenas a extração de granito cresce, apesar da falta de estrada para os caminhões.

Por Marcos Lobato Martins, 31 de julho de 2008.  25 Comentários

25 respostas para ' Outro homem simples do Vale do Jequitinhonha '

Receba os comentários com RSS ou TrackBack to ' Outro homem simples do Vale do Jequitinhonha '.

  1. Cristiane escreveu,

    em agosto 18th, 2008 às 09:33

    Sempre que leio suas histórias a respeito do povo do Vale acende em mim o desejo de dar encaminhamento ao Projeto que visualizei quando dava aulas em Almenara.

    É preciso sim que se faça um trabalho com a memória, utilizando a oralidade, com o povo do Vale.

    Abraços,

  2. romeri vieira dos santos escreveu,

    em outubro 4th, 2008 às 07:16

    sou filho da cidade de novo cruzeiro, e desde que mudei dai não mais retornei, gostaria de contatos com alguem dai para que possa retornar e passar a ter um vinculo, pois preciso retomar a minha vontade de retornar a minha terra natal,poucas lembranças tenho, pois era ainda ciança quando parti desta cidade, gentileza enviar fotos e videos para que eu possa relembrar,

    desde já agradeço,

    romeri vieira dos santos

  3. welinton de Salomé. escreveu,

    em janeiro 4th, 2009 às 12:17

    Que bom encontrar gente do Queixada na rede.Fiquei esperando a foto da minha amada professora Sâozinha. Estou querendo ir até aí para levar semente de cupuaçu e rever pessoas tão preciosas que onde vou carrego na lembrança.
    Por esses dias irei eu a moto e a saudade até Queixada e espero ver todas essas pessoas tão importantes, tão resilientes e que fazem toda a diferença na vida de quem as conhecem.

  4. maria jose baatista silva escreveu,

    em fevereiro 10th, 2009 às 19:23

    Que bom encontrar pessoas que são dessa região. Meus pais saíram daí em 62 e nunca mais voltaram . Perderam todo contato com os familiares de Minas gerais. Crescemos sem cohecer nenhum tio, primo…Meu pai era da região do Vale do Jequitinhonha…. morava em fazenda com os pais O nome é marcolino silva ramalho e de minha mãe é ana lopes de oliveira. Trabalharam para dona edite em uma serraria nas proximidades… Seria possível encontrar algum parente deles por meio desse site? por favor MINEIROS, GENTE BOA AJUDE -ME. sERIA A REALIZAÇÃO DO SONHO DE MINHA MÃE QUE HOJE SE ENCONTRA COM 76 ANOS

  5. ELIAS LOPES escreveu,

    em fevereiro 13th, 2009 às 19:16

    BOA NOITE ANTONIO ZEZINHO SOU EU SEU AMIGO ELIAS FILHO DE MAMOEL MISIANO BOM SE QUIZER ENTRAR EM CONTATO COMIGO VAI MEU IMAIL UM ABRAÇAO DO SEU AMIGO ELIAS

  6. Raion Carlos de Azevedo escreveu,

    em fevereiro 17th, 2009 às 12:58

    Parabens pelo sua viagem.
    Muito rica.
    Gostaria muito de comprar uma fazenda no Vale.
    Vc conheceu alguem que posso me ajudar nas suas viagem pelo Vale. abraço.

  7. Vicente Rocha Homem escreveu,

    em fevereiro 17th, 2009 às 18:04

    Oi.Gostaria também de deixar aqui minha tristeza com o fim da EFBM.Ainda era criança em Novo Cruzeiro quando a estrada foi desativada.Morro de saudades e tenho um sonho:Andar de trem.Nunca tive oportunidade.Hoje moro em São João do Paraiso,norte de Minas,mas sempre vou a N.Cruzeiro,passando pelo leito da Bahia e Minas.Abraços.


  8. em abril 1st, 2009 às 14:44

    Gostaria aqui de lembrar que entre as fazendas do Borá , Lagoa e a do Sobrado existe a maior e melhor de todas as fazendas daquela região que se chama ” CORREGO SECO ” um lugar mágico para mim, nunca esquecerei desta fazenda onde vivi a melhor fase da minha vida. E lembranças para aqueles que já se foram , personagens que faziam daquele lugar tão simples o melhor lugar do mundo para mim : Ti Nicho e Tia aparecida.

  9. Crispaulo Vancenni escreveu,

    em maio 23rd, 2009 às 20:42

    Trata-se tbm do cara mais fofoqueiro da região…..
    é ou não é?

  10. Eva da Costa Borges escreveu,

    em agosto 15th, 2009 às 22:08

    gostaria de comentar sobre uma famili que nem conheci, meus pais vierao de minas ,eu ainda naõ era nacida ,mas minha mãe já falecida agora dia 28 de agosto completa 3anos q ela se foi ,ela me contava tudo sobre a vida deles ai em minas.Falava sobre a estaçao de ferro em Teofiotone na qual meu tio casado com a irmã do meu pai Joaõ da Costa Borges e minha tia se chamava RITA que era esposa do meu tio ANICETE Que minha mãe MARIA DE LURDES GOMES RAMALHO BORGES sempre me dizia se não me engano ele era telegrafo ou maquinista seu filho AMADEU tbm trabalhava na linha de trem de ferro ,eu mesma EVA DA COSTA BORGES sempre me enteresei pelas as historia q minha falava era doida p cnhecer pelo menos um primo pois já fazia muitos anos q eles vierão de minas o norte goias proximo a Brasilia tem mais ou menos uns 48 anos e meus pais nunca mais voltaraõ p minas eles eraõ natural de POTÉ os dois já falecido sou a filha mais nova q já estou com 41 anos .Esta é minha história me recordo com se foce hoje minha me contando as história como ra a vidas deles ai em minas

  11. Wasly Souza escreveu,

    em agosto 20th, 2009 às 10:52

    Olá! Fico muito satisfeito ao perceber que há pessoas envolvidas com essa região espero que ajudem salvar o rio Gravata. Nsci em Alfredo Graça moro em Brasília onde faço faculdade de Direito pela UCB.
    Permitam que futuras crianças dessa região possam ter otimas lembranças de uma região extremamente pobre, porém rica de pessoas maravilhosas possam ter otimas lembranças de infância visando um sucesso profissional que hoje não é mais tao distante.

  12. arlech mateus lopes escreveu,

    em dezembro 17th, 2009 às 17:39

    pasei minha juventude entre ladainha malacacacheta alfredo graça e teofilo otonie tambem em novo cruzeiro onde meu pai aquilino mateus lopes começou construir a barragem para tornar os habitantes mais auto suficientes nao podendo inaugurala simplesmente por politicagem.

  13. sebastião vaz escreveu,

    em dezembro 30th, 2009 às 11:32

    Nossa que alegria poder deixar comentário eu sei que alguns amigos da região vai lembrar-se de mim eu sou filho do Jason morador no capão entre queixada e chinor bom eu não me lembro das maquinas de ferro mais ainda tia alguns dormentes e trilhos e as linhas de te legras que saudade de todos agora eu moro em Barueri são Paulo…

  14. Arlinda Mais Linda escreveu,

    em fevereiro 7th, 2010 às 14:04

    Sou filha da terra, pra lá de Novo Cruzeiro, pra lá de Sapé, sei lá onde que é! Mas qual é Teofiotone?! Que cidade é essa? Se me lembro é Teófilo Otoni, e o outro ainda me escreve Teofilo Otonie. Estou com saudades da terra (onde nasci). Até mais Minas Gerais!

  15. Paulo Viana escreveu,

    em abril 11th, 2010 às 21:23

    Antônio Campos é um amante do Queixada e um brilhante presidente do Conselho Comunitário.Graças à sua luta e empenho pessoal,construiu a ponte sobre o rio Gravatá,brigou pelas estações de tratamento de esgoto e conseguiu recursos para adquirir material de construção para famílias carentes.Não é mais presidente do Conselho, mas continua lutando para dias melhores para o povo de Queixada.Tem aquí o meu reconhecimento público.Parabéns prá ele.

  16. Arlinda Mais Linda escreveu,

    em maio 11th, 2010 às 20:12

    Vou levar meu curico pra lá!! Ô terra boa sô!! :)

  17. joana darc poderosa (zana da calu) escreveu,

    em dezembro 23rd, 2010 às 13:54

    23 de Dezembro 2010
    nasci em novo cruzeiro MG em 1978 onde cresci ate o 9 anos tenho mta saudade de la,na infancia me lembro de brincar na fazenda da madrinha das Dores esposa do seu tinhô lá na fazenda plantavam café, eu e meus coleguinhas da mesma idade ia ajudar nossos pais colherem o café,imaginem como era divertido umas 15 criaças brincando de pique esconde no cafesal.no fundo de casa tinha muitos pés de manga onde brincamos .morro de saudades de lá, moro em vazante MG desde que vim de lá .


  18. em janeiro 29th, 2011 às 22:12

    É muito bom e gratificante saber que em queixada existe pessoas assim como vcs que se preoculpa com a região.Meus pais mudaram pra queixada em 1970,izatamente pra Fazenda (BORÁ) saimos de Porto Firme pra trabalhar na F. Borá.Depois compramos compramos uma casa dentro de queixada eu morei nesta casa enquanto estudava no antigo colejo.Aluem que ler este comentário talvez pode si lembrar da Irmã Auxiliadora e a família do Antônio Chiquim ou Antônio Batista. Joguei muita bola com o Seu Quincas me treinando GRANDE E INESQUESIVEM amigo. Eu hoje moro em uma cidade bem pequena no Espírito Santo de 12 mil abitante depois de uma grande avetura em São Paulo e Rio de Janeiro. To com saudade se der ainda vou visitar a minha querida Queixada ode morei só 5 anos mas onde eu comecei a compriender saber o que queria ser quando crecer.A minha profesora me falou quando crecer e ser alguem importante volta ao menos pra nos visitar eu hoje posso vos visitar e dizer pra todos qui sou muito feliz e realizado. Abraço se alquem lebrar de mim ou de minha família me mande um e-mail visite meu site http://www.newnettelecom.com.

  19. antonio duarte escreveu,

    em fevereiro 28th, 2011 às 20:58

    É muito gratificante,encontrar achar histórias sobre queixada,(a cidadede onde nasci) se bem que poderia ter mais comentarios mais noticias, mais reportagens ,alguem que possa contar histórias do passado de queixada,tenho certeza que existe historias maravilhosas sobre essa cidade, pequena e ao mesmo tempo imênsa.onde viví toda a minha ínfância até os 16 anos.nos quais tenho lembranças maravilhosas desta cidade de queixada,embora já faz um bom tempo que voltei desde que vir embora,mas pretendo voltar em breve. valeu pessoal.

  20. junio lemes escreveu,

    em maio 13th, 2011 às 20:48

    oi antonio tenho muita saudade de voces,e adoro queixada.

  21. Rodrigo santana escreveu,

    em maio 20th, 2011 às 09:30

    Ola pessoal:fico alegre lendo tantas boas e maravilhosas historia.Estou postando este comentario para,todos que ja passaram por aqui e esta fora de [queixada]estou morando aqui a [1]um ano tenho boas noticias o pessoal aqui estao todos bem :so quero aqui registra um apelo nos [ájude]pareçe que estamos esquecidos voçe que realmente gosta d qui tem codiçoes de fazer alguma coisa faça;o rio gravata esta sendo poluido nao tem emprego ,nao tem infestimento,nao tem area de lazer. autoridades È hora de nos ajudar o povo esta sofrendo [cade o asfalto que os governantes nos prometeu]promessas e dividas ,precisamos de uma reforma no colegio ,mais medicos,mais recursos financeiros ;se nao fizer ha gora nao vai ter historia p contar mis;[pb]Rodrigo santana.meu email:rodrigosantana50@hotmail.com.entra em contato com a gente.um abraço a todos.

  22. rayssa rocha camargos escreveu,

    em junho 26th, 2011 às 17:38

    Gente eu estou morrendo de saudades deste lugar eu morei ai uns 3 anos,e faz 2 anos que eu nao vou e se Deus quizer eu vou ai este final de ano

  23. VALQUIRIA FERREIRA GONÇALVES escreveu,

    em agosto 3rd, 2011 às 12:30

    o povo de queixada nao tem interesse pelos interesses do lugar onde moram,a respeito de antonio zezinh.se ele fizesse o tanto que ele falasse,queixada,estaria ha 100 anos luz.sou de queixada,e nao faço nada a favor de queixada,pq la so tem dois donosnem preciso falar quem sao


  24. em novembro 16th, 2011 às 08:54

    Olá bom dia. Em janeiro eu postei um comentário, em que esta querendo ir aí em queixada. Hoje estou contente pois antes do final do ano estarei aí.Se alguém puder me HOSPEDAR AI favor entrar em contato franciscoassis.57@hotmail.com Desde já eu e minha esposa agradecemos.

  25. debora rodrigues escreveu,

    em janeiro 7th, 2012 às 23:03

    ah! so saudades dia dez de janeiro vai fazer quatro anos que estou aqui no rio mas nada se compara ao lugar onde se nasce. assim e queixada possa nao ser o melhor lugar pra se formar profissional mas e o melhor lugar mundo pra se viver tranquilo!

Escreva um comentário


 
 

Nuvem de tags