Na eleição, reivindicar mais Quantidade Bruta de Felicidade.
As eleições municipais ainda não esquentaram. Aos poucos, porém, as cidades começam a respirar o ar agitado das campanhas, de modo que o estado de ânimo das pessoas, creio eu, mudará inevitavelmente. Não sei se ficaremos mais leves enquanto pensamos sobre os problemas e perspectivas de nossos municípios. É mais provável que nosso rosto fique franzido, mesmo que alimentemos a esperança de que a próxima administração da cidade seja melhor. O que importa é que estamos mais propensos a fazer balanços críticos, mas generosos. Quem sabe até a tolerar quem propõe reflexões um tanto poéticas, muito pouco práticas.
Então, vou aproveitar a oportunidade para retomar uma velha e simpática idéia. Uma idéia que nasceu com excelente pedigree, nos tempos quentes e promissores da Convenção, quando a França revolucionária era agitada por Robespierre, Danton e Saint-Just. A paternidade da idéia, um primor de simplicidade e genialidade, é da cabeça ruiva de Saint-Just. Talvez por isso, o chefão Robespierre tenha mandado matá-lo.
Saint-Just queria entronizar a felicidade como o critério supremo da ação política. Sugeria aos governantes esquecer coisas como o poderio militar do Estado, a saúde das finanças públicas, a expansão do poder. Tudo deveria subordinar-se à busca da felicidade dos cidadãos. O progresso de uma nação, dizia Saint-Just, deveria ser medido pelo grau de felicidade do povo. Ao invés do PIB (Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas criadas pelo país), invenção terrível dos economistas, o que deveria contar seria a QBF – Quantidade Bruta de Felicidade.
Não pode haver idéia mais afinada aos desafios da contemporaneidade, porque a felicidade tornou-se estado raro entre os homens e as mulheres do Pós-Guerra. A quantidade de riqueza produzida no mundo aumentou de maneira fantástica, os avanços técnicos promoveram uma vida muitíssimo mais confortável, porém, mesmo nos países superdesenvolvidos do Norte, permanece pequena a proporção das pessoas que se julgam felizes, realizadas. Pequena mesmo, em contraste com as vendas crescentes de fármacos e drogas que prometem instantes de relaxamento ou de sonhos.
Os sofrimentos dos homens modernos não cedem, amplificados pelas pressões derivadas do individualismo e da competição extremados. Tornamo-nos gente que considera dinheiro e bens móveis valores decisivos, mas que jamais se dá por satisfeita. Veneramos um sistema econômico eficaz na geração de lucros e novidades, porém moralmente problemático. Nossas cidades, bolhas enormes de concreto, aço, vidro e asfalto, agravam nossas angústias. A cidade promove hoje a concentração dramática dos contrastes, exasperando as tensões e os conflitos. De um lado, há os excluídos da “felicidade” do mercado; de outro, perfilam-se os privilegiados, assustados com o risco de perderem o patrimônio e a vida. Uns bem perto dos outros, na floresta de símbolos que virou a grande cidade, agravando o “estranhamento” que se apossa de todas as relações sociais.
Sobram dinheiro, riqueza e mercadorias. Faltam felicidade, confiança e ética. O que traz à memória a frase perturbadora de Hobbes: “Quando nasci, minha mãe teve gêmeos, eu e o medo”. O medo é companheiro inseparável e sentimento-síntese do homem contemporâneo.
Nós, que vivemos na maior parte das pequenas e médias cidades brasileiras, entramos nessa ciranda moderna tardiamente, lá pelos anos 60 ou até posteriormente. Mas entramos. Talvez por isso, em diversas cidades mineiras, apreciemos tanto as histórias que os mais velhos contam sobre nosso passado “bucólico”, regulado pelos apitos de velhas Fábricas de Tecidos, da Maria-Fumaça nas Estações da Central ou da Oeste de Minas e pelo mugido do gado nos currais que cercavam as cidades. Taí uma pista para compreender porque é tão resistente a nostalgia de cidades interioranas que não existem mais. Há muitos de nós dispostos a concordar com os mais velhos, aceitando que os tempos antigos eram mais felizes. Aumentou o PIB de nossa cidade, porém teria caído sua QBF?
Aqui também sofremos, tememos, vivemos incertezas em série. Estranhamos a maioria dos que dividem conosco a cidade, desconfiamos de tudo e de todos. Então, é hora de regressar a Saint-Just: a felicidade precisa voltar a ser a finalidade da política.
O desafio maior dos que governarão as nossas cidades não será, portanto, simplesmente alçá-las ou conservá-las Pedro entre as cidades mineiras mais atrativas para o capital, como costumam querer as equipes de guarda-livros que assessoram Prefeitos. Acúmulo de capital não é sinônimo de qualidade de vida, de realização pessoal ou coletiva, de felicidade. Nem bastará encher as cidades de obras para resolver a angústia dos moradores. Com licença poética, quero propor que a tarefa política imprescindível dos Prefeitos é promover a pequena utopia de Saint-Just: fazer das pequenas e médias urbes interioranas mineiras cidades boa para se viver. Lugares felizes, habitados por pessoas mais sensíveis e fraternas.
Um caminho a tomar é o de garantir educação e renda para todos. Promover, por meio das ações da Prefeitura, a empatia e o respeito entre as pessoas, valorizar as identidades coletivas, o amor-próprio dos mineiros espalhados por centenas de póleis, aproveitando criativamente o orgulho do povo dessas cidades.
Por Marcos Lobato Martins, 23 de julho de 2008. 1 Comentário


em julho 24th, 2008 às 18:27
prezado companheiro Marcos: estamos em diamantina, pousada real. amauri, aninha, marli, eu, mariane, cíntia e natália. felicito-o pelo texto. a felicidade é possível. no plano individual depende apenas de nós. no coletivo a questão é mais complexa. aspirações, desejos, metas, ambições têm, cada uma, suas peculiaridades individuais. no plano político, concordo com sua avaliação. educação e distribuição de renda. meu enfoque é na educação e a renda como instrumento para a educação. no plano municipal, em pedro leopoldo, admiro aqueles que continuam acreditando na possibilidade de se fazer algo de concreto para a evolução política, mas tenho dificuldade de acreditar, em razão, por exemplo, de sua “renúncia” à candidatura ao cargo de vereador. saudações azuis e vermelhas, sem esquecer o verde do américa da 3 divisão. roberto e família.