Agilidade intelectual do professor nas pequenas IES interioranas

A rápida expansão do Ensino Superior a partir do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso provoca uma enxurrada de críticas. Há realmente muitas distorções, destacando-se a desenvoltura com que grupos mercantis poderosos avançaram sobre o setor, espalhando pelo país “faculdades” que oferecem péssimas condições aos estudantes e aos docentes. De roldão, as críticas atingiram instituições sérias, tradicionais, boa parte das quais de feição comunitária, jogadas no turbilhão da “competição predatória” que domina, atualmente, o setor do Ensino Superior Privado.

A situação é agravada pela continuidade da notória desvalorização da carreira do Magistério e da rede pública de ensino básico. Com isso, não existem estímulos capazes de atrair os jovens, especialmente os mais bem preparados, para o trabalho docente. Dessa maneira, a procura pelos cursos de licenciatura cai ano a ano, numa velocidade espantosa. Como resultado, as pequenas Instituições de Ensino Superior (IES) interioranas, que lutaram bravamente por décadas para oferecer qualidade acadêmica, estão estranguladas, na beira da morte. E o atual Governo Federal parece ter optado, definitivamente, pela formação de docentes por meio do Ensino à Distância (EAD). Sem dúvida é mais barato, e pode ser mais abrangente; todavia, me parece equívoco gigantesco. Dadas as condições do Ensino Médio, formar licenciados pelo EAD é abandonar a busca de padrões de alta qualidade na formação dos futuros docentes. O curioso é que não se vê, alhures, a adoção dessa opção pelo EAD para formar professores. Não se vê isso na Finlândia, na Coréia – países que lideram os rankings de avaliação internacional do Ensino Básico – e nem mesmo nos Estados Unidos, que conservam a liderança mundial na ciência, tecnologia e inovação. Parece que, no Brasil, não se quer ver a melhoria do Ensino Superior Privado e nem se pensa, seriamente, sobre o importante papel que ele pode desempenhar na formação de pessoas qualificadas para atender as demandas de um país de dimensões continentais que precisa modernizar-se, e obter, rapidamente, ganhos elevados de produtividade nos mais diversos setores da economia.

Eu sempre trabalhei em pequenas fundações comunitárias de Ensino Superior, desde os anos 90. Nunca vivi conjuntura tão difícil, desesperadora mesmo, nas instituições em que trabalho. É uma pena, porque ambas – a Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina (FAFIDIA) e as Faculdades Pedro Leopoldo (FPL) –, ao longo dos seus 40 anos de existência, sempre primaram pela busca da qualidade do ensino. O dinheiro nunca sobrou. Mas a estrutura relativamente enxuta e bem flexível permitiu fazer pequenos milagres. Os docentes, contando-se, é claro, as exceções de praxe, procuraram bravamente a pós-graduação e se desdobraram para responder as exigências acadêmicas postas, de um lado, por um alunado mais exigente e, de outro lado, por normas oficiais crescentemente detalhadas, caras e estranhamente presas ao modelo das Universidades Federais.

Nesse ambiente, os professores de História, mas não só eles, tiveram que seguir à risca – quem sabe até com certo exagero – a recomendação de Fernand Braudel, que dizia que o historiador não deveria se furtar a falar de nada. Nas pequenas IES, os professores de História têm que ser ágeis. A especialização não pode impedir a construção cotidiana de uma visão, bem informada e sofisticada, do mundo lá fora. Pela simples razão de que os docentes do Curso de História são chamados a participar, no calor da hora, de debates sobre os acontecimentos que produzem manchetes espetaculares nos jornais impressos e televisivos. O que os telespectadores da TV fechada assistem, semanalmente, em programas como “Globo News Painel” ou “Sem Fronteiras” (também da Globo News), repletos de convidados especialistas nisso e naquilo, ocorre com freqüência nas pequenas IES. Sem que haja muito tempo para organizar. E dinheiro, então, nem se fala…

Eu me lembro que, no dia 11 de setembro de 2001, pela manhã estava em Diamantina quando vi, com colegas professores da FAFIDIA, as imagens na TV do ataque às Torres Gêmeas, em Nova Iorque. Naquele momento decidimos que o assunto deveria ser debatido na Faculdade. Chegada a noite, reunimos no Auditório da Faculdade os estudantes do Curso de História e fizemos uma mesa-redonda sobre o terrorismo. Algo realizado assim de chofre, mas que teve boa qualidade. Não ficou devendo nada aos programas que, dias depois, as TVs fechadas levaram ao ar sobre o assunto. Em Pedro Leopoldo, para citar outro exemplo, o Curso de História organizou uma mesa-redonda sobre a violência urbana, poucos dias após um de nossos estudantes ter sido assassinado numa festa ocorrida em praça pública, ao ser confundido com um traficante jurado de morte por grupo rival. No ano de 2006, a nacionalização do gás boliviano, realizada com a sutileza própria de Evo Morales, exigiu a organização, do dia para a noite, de mesa-redonda na FPL envolvendo docentes do Curso de História. Nesse semestre, a eleição de Fernando Lugo para a Presidência do Paraguai gerou debate na disciplina de Direito Internacional do Curso de Direito de Pedro Leopoldo, para o qual a intervenção de professores do Curso de História foi solicitada (ver o texto “Relações Brasil-Paraguai…” que preparei para minha participação nesse debate sobre política externa e direito internacional). Eu poderia dar muitos outros exemplos. Eles confirmariam a regra: nas pequenas IES, o debate existe e requer, dos docentes, a habilidade de participar seja o assunto debatido sua especialidade ou não.

Somos, portanto, desafiados numerosas vezes. Desafios que nos fazem fugir à especialização obstinada e estreita, que nos obriga a manter os olhos sobre o mundo à nossa volta, olhos críticos e curiosos. É claro que há o perigo da “cultura de almanaque”, como meu pai chamava a disposição daqueles que tentam agradar dizendo meia-dúzia de obviedades sobre qualquer assunto. A tentação do ensaísmo vazio e retórico dos antigos bacharéis ronda os docentes das instituições interioranas. Contudo, não há como fugir dessa exigência de, digamos assim, conservar certa “agilidade intelectual”.

Nessas horas, nós, os professores de História das pequenas IES interioranas, temos que ter em mente a lição de Montaigne: “Ninguém está isento de dizer tolices. Ruim é dize-las como se fossem interessantes”.

Por Marcos Lobato Martins, 27 de julho de 2008.  Comentários

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