A inflação dos alimentos, outra vez
A inflação dos alimentos que corre mundo assusta cada vez mais. A discussão sobre as causas desse fenômeno está excessivamente vinculada a abordagens conjunturais, em boa medida por causa da contribuição dos economistas. Fala-se em impactos do preço do petróleo sobre insumos agrícolas e transportes, sobre os movimentos especulativos com commodities praticados por hedge funds e da acomodação de preços relativos decorrente da queda do dólar. Sobra também alguma culpa para a produção crescente de biocombustíveis e para os subsídios nos países ricos. E não ficam de fora do rol de causas as secas prolongadas na Austrália e Ucrânia.
A conjuntura importa, é claro. Mas será que apenas ela explica o que se passa hoje nos mercados de alimentos? Não haveria alguma coisa de natureza mais estrutural contribuindo para os aumentos de preço da comida? Duas pequenas entrevistas publicadas no caderno “Mais!” (Folha de São Paulo, edição de 6 de julho último) fornecem indícios de que há movimentos de longa duração por detrás da atual inflação de alimentos.
A primeira entrevista é de Carolyn Steel, arquiteta inglesa e autora do recém-lançado “Cidade com fome – Como a comida define nossas vidas” (Chattof & Windus, GB), que relaciona o fenômeno com as evoluções urbana e agrícola ocorridas nos últimos dois séculos. Para Carolyn Steel, a produção industrial de alimentos teria tornado possível imensas cidades, que podem ser erguidas em qualquer lugar. Nessas cidades, os ávidos consumidores teriam perdido a noção de que os alimentos têm origem em plantas e animais, o que significa que estão associados aos solos e demais recursos naturais finitos. Essa disjunção cognitiva teria potencializado o consumo exagerado e o desperdício em metrópoles imensas. O crescimento urbano e a industrialização da agricultura teriam promovido a ilusão de que a comida brota nas gôndulas dos hipermercados, sem guardar relação com a terra. Por outro lado, Steel enfatiza que a forte concentração da produção e distribuição da comida nas mãos de poucas e poderosas corporações alimentícias estaria matando a agricultura de menor escala, e fazendo expandir pelo planeta um modelo de atuação que não seria racional quanto ao uso da terra. Para Carolyn Steel, o consumo exagerado e o desperdício de comida nas grandes cidades e a desconexão entre homem-comida-natureza (que seria parte do ethos da civilização capitalista) seriam elementos estruturais que determinariam a tendência altista dos preços dos alimentos. A reversão dessa tendência exigiria a busca de “alimentação sustentável”, incluindo a regionalização da produção e a reelaboração das relações entre cidade e natureza. Nas palavras da arquiteta inglesa, “precisamos de uma cidade que volte a ter um elo com o mundo natural, com áreas produtivas dentro dela”.
A segunda entrevista é de Maria Sylvia de Carvalho Franco, conhecida autora da obra “Homens livres na ordem escravocrata” (São Paulo: Ática, 1974). Ela chamou a atenção para o caso brasileiro, enfatizando as relações entre nossa estrutura produtiva e o comportamento dos preços de alimentos. Para Carvalho Franco, a estrutura produtiva brasileira tenderia a piorar a alta de preços que se verifica hoje. A razão estaria tanto na utilização não racional da terra quanto na teimosa aposta que o país faz na monocultura. “A história do Brasil tem sido a de uma monocultura atrás da outra”, opção que gerou degradação ambiental, crises econômicas periódicas e fome. O favorecimento ao agronegócio estaria na base de processo contínuo de geração de pobreza e fome, ao mesmo tempo em que enfraqueceria a agricultura familiar. Como é sabido, enquanto o agronegócio produz cana que vira açúcar (que é em grande parte vendida para o exterior) e álcool (que alimenta veículos), soja que vira razão para rebanhos no exterior e carne que vira bife no Norte rico, é a agricultura familiar que produz 70% do que os brasileiros consomem no dia-a-dia. Os 4,1 milhões de estabelecimentos de agricultores familiares contribuem hoje com 56% do leite, 67% do feijão, 89% da mandioca, 70% dos frangos e 75% da cebola produzidos no país, entre muitos outros produtos. Entretanto, essa agricultura familiar não tem recebido o merecido apoio em crédito, em assistência técnica, em acesso a máquinas e implementos e na política de compras e estoques públicos para evitar movimentos bruscos de preços.
O que há de comum nas entrevistas de Carolyn Steel e Maria Sylvia de Carvalho Franco? Ambas criticam o modelo de produção adotado pela agricultura empresarial, considerando-o insustentável no emprego de energia, insumos e terras. Ambas criticam o estilo de civilização que se expande há séculos pelo mundo, expansão acelerada pela atual globalização. No caso brasileiro, dados do IBGE mostram que o enfraquecimento da agricultura familiar e o avanço do agronegócio vêm produzindo, principalmente no Sul, Sudeste e Nordeste, a ampliação do número de municípios que perdem população, emprego e renda. Entre 2000 e 2007, 32% dos municípios brasileiros perderam população e outros 33% registraram crescimento meramente vegetativo. Justamente nessas cidades predominavam pequenas propriedades. O que se observa, portanto, é a concentração da riqueza e o inchaço das grandes e médias cidades. Isso faz sentido?
No Alto Jequitinhonha, a agricultura familiar encontra-se aos frangalhos, ameaçada desde os anos 1970 pelo avanço da silvicultura e da cafeicultura. Sem apoio, ela estagnou em patamares baixos de geração de renda e produtividade. Sobrevive porque existe a válvula de escape das migrações sazonais, que levam milhares de lavradores para os campos de cana e laranja no interior paulista.
Uma pesquisa que realizamos em 2004-2005, financiada pelo CNPq, em conjunto com os pesquisadores Tânia Regina Riul (Curso de Nutrição, Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri) e José Newton Coelho Meneses (Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais), abrangendo localidades da região, trouxe resultados inquietantes. As localidades pesquisadas apresentaram grande predomínio de domicílios possuidores de hortas e pomares, bem como número expressivo de roças. Todavia, a produção domiciliar de alimentos era frágil. As hortas, os pomares e a fabricação de alimentos compartilhavam traços comuns: pequena diversidade, baixo volume de produção e grande irregularidade na disponibilidade de alimentos ao longo do ano. Isso significava que parcela maior da renda disponível nas famílias era consumida na compra de alimentos vindos de longe e produtos industrializados, agravando a situação financeira nos domicílios. Ora, o “aperto financeiro” tende a empurrar mais homens (jovens e adultos) para as migrações, o que gera outra conseqüência negativa: a sobrecarga das mulheres na tarefa de garantir a alimentação dos moradores das casas. No passado, as mulheres cuidavam da cozinha, da horta, da criação de galinhas e porcos, enquanto os homens respondiam pelas roças e criações de maior porte. Hoje, entretanto, nas localidades pesquisadas do Alto Jequitinhonha, todas as tarefas ligadas à preparação das refeições, fabricação de alimentos, cuidados com as plantações e animais são eminentemente femininas. Sobrecarregadas, as mulheres não conseguem manter ou ampliar os níveis de produção doméstica de alimentos característicos do passado, que garantiam certa defesa das pequenas localidades e cidades contra as variações bruscas de humores nos mercados nacional e internacional.
Por Marcos Lobato Martins, 29 de julho de 2008. Comentários
