Política interiorana à moda mineira

A edição da última segunda-feira do jornal “Estado de Minas”, trouxe uma curiosa reportagem sobre as eleições na cidade de Andrelândia, no sul do estado, a 300 km de Belo Horizonte e 80 km de São João del-Rei. Informa a matéria que, na histórica Andrelândia, desde a época do Império, a política é disputada por duas facções rivais: o Partido dos Veados, controlado pelos herdeiros do Coronel José Bonifácio de Azevedo, e o Partido dos Caranguejos, que agrupa os descendentes do Visconde Antônio Belfort Ribeiro de Arantes, homem de confiança do imperador Dom Pedro II.

Em Andrelândia, as siglas partidárias atuais só existiriam no papel, em decorrência das exigências legais colocadas pelos Tribunais Eleitorais. Lá, ninguém se diz do PMDB, do PT, do PSDB ou do DEM. Naquele município, ou se é veado ou se é caranguejo. A bipolarização teria começado em 1884, quando o Coronel José Bonifácio de Azevedo elegeu-se presidente da Câmara de Turvo (antigo nome de Andrelândia) pelo Partido Republicano, derrotando as hostes do Visconde Arantes. Este chefe político então teria dito aos seus seguidores: “Não é possível que nossos votos tenham diminuído tanto. Andamos para trás. Parecemos caranguejos”. Publicada pelos jornais da época, a frase acabou por dar nome à facção chefiada pelo Visconde. Já o nome da facção do Coronel Azevedo também saiu das matérias dos jornais na mesma ocasião, que descreveram a alegria do grupo ao derrotar o Visconde nos seguintes termos: “Os seguidores de Bonifácio pulavam pelas ruas como cervos. Um verdadeiro pulo para frente como dá o veado, quando está sendo perseguido”. O Coronel Azevedo gostou do nome e adotou-o para seu “partido”.

Charge Política
Charge Política

Desde então, passados cento e vinte anos, a política em Andrelândia, marcada por histórias de assassinatos, amores proibidos e manobras e espertezas eleitorais, continua dominada pela rivalidade de veados e caranguejos. Rivalidade que sobreviveu à Proclamação da República, Revolução de 1930, ao Estado Novo varguista, à Ditadura Militar e aos ventos novos e democratizantes trazidos pela Nova República. Rivalidade que, no passado recente, fazia os seguidores dos dois partidos sentarem-se em lados opostos na Igreja, e frustrava as danças e os namoros entre moças e moços de famílias politicamente rivais. Rivalidade que significa que, tanto veados como caranguejos, sempre boicotaram a administração do grupo rival quando estavam na oposição. Segundo reportagem, a briga entre veados e caranguejos de Andrelândia estava entre os casos preferidos do ex-presidente Tancredo Neves. Para Tancredo, a disputa entre as duas facções exemplificava bem o jeito de o mineiro fazer política.

De fato, o arguto político mineiro tem razão. Nas Alterosas, a política interiorana foi – e ainda é – trama enovelada de disputas entre facções, lideradas pelas chamadas “famílias governamentais”. Essa expressão é de Orlando Carvalho, cujo estudo, hoje clássico, sobre as elites políticas mineiras remonta à década de 1950. Combinados, personalismo, familismo e patrimonialismo levaram a política nas cidades interioranas a girar em torno de duas, no máximo três, parentelas e suas respectivas redes clientelares. As cidades se dividiam politicamente, assistindo a renhida, e muitas vezes violenta, luta entre famílias tradicionais. Assim, em Diamantina, no final do século XIX, opunham-se os Matta Machado e os Felício dos Santos. Em Leopoldina, lutavam os Monteiro de Barros e os Almeidas; em Campanha, o poder oscilava entre os Lopes de Araújo e os Vilhena-Valadão; em Paracatu, entre os Melo Franco e os Botelhos; em Montes Claros, entre os Chaves-Prates e os Veloso-Versiani; em Pitangui, entre os Álvares da Silva – Cordeiro Valadares e os Capanema – Lopes Cançado. Em Pouso Alegre e Ouro Fino, a disputa opunha os Barros Melo e os Paiva Bueno. E, na famosa Barbacena, os Ribeiro de Andrada e os Bias Fortes. Conforme Carvalho, “nas campanhas eleitorais surgiam críticas, caricaturas e apelidos que permaneciam [...] Passos: patos e perus; Lavras: gaviões e rolinhas; Alfenas: besouros e marimbondos; Itapecerica: tarecos e papeatas; Januária: luzeiros e escureiros; Guaranésia: peludos e pelados” (CARVALHO, Orlando M. Os partidos políticos em Minas Gerais. Segundo Seminário de Estudos Mineiros. Belo Horizonte: UFMG, 1957, p. 23-41).

Em diversas cidades, as antigas famílias governamentais declinaram, e acabaram substituídas por outros “clãs políticos”. Entretanto, a lógica bipolar permanece válida. Apenas muito lentamente, nas áreas diretamente afetadas pela modernização sócio-econômica mineira, cujo ritmo ampliou-se após a década de 1970, está em marcha processo de erosão da política tradicional. Onde avançam os sindicatos, as organizações da sociedade civil, a diversificação da estrutura ocupacional, o ensino superior baseado em universidades, a política interiorana ganha feições novas com mais rapidez. Para desespero dos “progressistas” ou “modernizadores”, isso ocorre numa parcela reduzida dos mais de 850 municípios mineiros.

O que mais se ouve, portanto, é dizer que a política mineira no interior é atrasada, caduca, dominada por coronéis, ou melhor, por um vago “neocoronelismo”. Que os mineiros são acostumados a chefetes, a pequenas tiranias familiares, ao mundo raso das lutas de veados e caranguejos, gaviões e rolinhas, peludos e pelados, luzeiros e escureiros. Que os mineiros não sabem lidar com partidos e programas políticos consistentes, que fogem da política ideológica como o diabo da cruz. Por isso mesmo, os mineiros seriam visceralmente conservadores, até antimodernos no plano político.

Eu penso que há, na base dessa caracterização da política mineira interiorana, um mito poderoso. O mito da política ideológica. A idéia de que, no mundo avançado, os eleitores votam em partidos; partidos cujos programas são detalhados, consistentes e distintos, de maneira que as disputas eleitorais são ideologicamente orientadas. Essa visão de partidos fortes, ideológicos, e de eleitores racionais e bem informados, que escolhem conscientemente os candidatos tendo em vista seus interesses de classe e os programas que os postulantes apresentam é, para dizer o mínimo, muitíssimo exagerada. Uma idealização, que lida com eleitores sofisticados e partidos políticos “autênticos”, distribuídos claramente ao longo de um eixo direita – esquerda (ver REIS, Fábio Wanderley. Tempo presente: do MDB a FHC. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, especialmente parte 2).

Ora, é difícil encontrar esse modelo de política onde quer que seja, até mesmo nas nações mais desenvolvidas do mundo. Em primeiro lugar porque o eleitorado popular nunca é tão sofisticado em suas atitudes ou disposições políticas. Apenas uma minoria possui educação e acesso a bens culturais e intelectuais suficientes para perceber precisamente seus interesses de classe. A maioria decide o voto com base em percepções singelas do universo político, geradoras de identificações surpreendentes entre eleitores e candidatos. Desinformação, paixão e simpatia, combinadas de modo complexo, influenciam decisivamente as escolhas dos eleitores populares, tanto mais quanto mais pobres, material e intelectualmente, eles forem. Em segundo lugar porque, nas cidades pequenas, no mundo inteiro, há maiores chances de se deparar com a “idiotia da vida rural” de que falava o Manifesto Comunista faz mais de 150 anos. Nos pequenos municípios, o clientelismo e a deferência (postura que é comum nos estratos mais baixos da pirâmide social) tendem a obstar o aparecimento de aguda “consciência” política. Então, os eleitores mineiros do interior não são mais atrasados do que os congêneres paulistas, nem mesmo do que os cidadãos dos pequenos condados estadunidenses.

O problema não está na lógica bipolar da disputa política municipal, girando em torno de “famílias governamentais”. O que, penso eu, deve preocupar os cidadãos é como oxigenar esse “sistema”, isto é, como possibilitar o surgimento de novas lideranças e melhor representação política dos grupos sociais à medida que aumentar a complexidade nos municípios interioranos. A questão é facilitar a abertura de brechas na hegemonia formada pelos coronéis ou “neocoronéis”. Fizemos alguns avanços nessa direção. O mais óbvio deles é a notável melhora na lisura das eleições, graças à atuação firme da Justiça Eleitoral e do Ministério Público. Outro é a nova regulamentação das campanhas eleitorais, que impede showmícios, distribuição de brindes e camisas, contribuindo para reduzir os custos. O financiamento público ajudará ainda mais. Acredito que daremos mais um passo se houver a possibilidade legal de lançamento de candidaturas avulsas, fora do controle ferrenho das oligarquias partidárias interioranas. Também a emenda, aprovada na Câmara Federal e que seguiu para o Senado, restaurando o número de vereadores (reduzido por decisão do TSE, de 2004) contribuirá para ampliar os espaços de surgimento de novas lideranças, ao mesmo tempo em que favorecerá maiores chances de representação política de grupos e movimentos sociais hoje marginalizados na política dos municípios interioranos.

Por Marcos Lobato Martins, 11 de junho de 2008.  1 Comentário

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  1. Francisco Rocha escreveu,

    em abril 28th, 2009 às 23:49

    Marcos, por uma incrível coincidência, meus parentes moram em Andrelândia, e já conheço essa história de cor e salteado, como dizem. Achei interessante o seu comentário, pois ele é bastante oportuno. Na minha família, os Barquettes, acontecem essas rivalidades há anos. E o pior, a coisa toma ares shakespearianos, coisa do tipo casamento não admitido pelos pais. As discussões são intermináveis, e pioram em época de eleição.
    Porém, também queria observar a política americana, a maior potência do mundo, passa por uma situação semelhante com os seus partidos republicano e democrata. sou professor de história, e me recordo muito bem da política dos pombos e falcões, principalmente no período da Guerra Fria.
    Portanto, acredito que, históricamente,Andrelandia, com os seus veados e caranguejos, é um exemplo claro dessas questões políticas pertinentes àqueles que pretendem o poder,seja a que meios for.
    Parabéns pela clareza das idéias, pois me ajudou a construir um novo conceito da política daquela cidade.

    Abraços.

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