Pequeno balanço do IV Simpósio da SOLCHA
Quem der uma olhada no livro de resumos do IV Simpósio da Sociedade Latino – Americana e Caribenha de História Ambiental, intitulado História Ambiental e Cultura da Natureza, verá a diversidade dos temas apresentados nas comunicações realizadas por pesquisadores das três Américas e do Caribe. O sucesso do evento, ocorrido entre os dias 28 e 30 de maio, em Belo Horizonte, mediu-se tanto pela expressiva participação de estrangeiros – praticamente 50% dos participantes – quanto pela qualidade de muitos debates e exposições ocorridos. A própria SOLCHA, por assim dizer, ganhou corpo e afirmou-se como organização capaz de congregar os pesquisadores de História Ambiental no Brasil e nas Américas. Esse, aliás, foi o resultado mais expressivo do Simpósio de Belo Horizonte.
Decorrência, de um lado, dos padrões de organização do evento e, de outro lado, do interesse crescente pela temática ambiental, Minas Gerais apareceu bem representada, com 31 comunicações entre os 195 trabalhos inscritos, perfazendo 16% do total. Os trabalhos mineiros abarcaram os séculos XVIII, XIX e XX e examinaram praticamente todos os tipos de questões centrais na pesquisa de História Ambiental: representações literárias e cientÃficas sobre a natureza, trajetórias de ambientalistas, problemas e casos de degradação ambiental em áreas especÃficas do território mineiro, conflitos de usos dos recursos naturais, modos culturais distintos de manejo ambiental, gestão de unidades de conservação e diretrizes de educação ambiental, construção de ambientes urbanos e seus impactos sobre a natureza circundante, etc. Predominaram as perspectivas qualitativas nas comunicações referentes a Minas Gerais. E bom número delas tomou como unidade de análise biomas (como o cerrado) e bacias hidrográficas (como a do São Francisco e do Rio Grande).
De minha parte, considero importante fazer um reparo. Muitas comunicações apresentadas no Simpósio, olhadas objetivamente, constituem trabalhos de História Cultural que se imiscuÃram num congresso de História Ambiental. É claro que linhas divisórias entre campos da pesquisa histórica são tênues e mal definidas, mas existem. Penso que a História Ambiental, mesmo quando lida com representações sobre a natureza, deve atentar também para a materialidade dos processos de interação entre a sociedade e a natureza. As variáveis ambientais – fisiográficas e bióticas – devem comparecer nos trabalhos que se pretendem enquadrar no campo da História Ambiental. Sem estas variáveis, os diálogos com a Geografia e as Ciências Naturais ficam praticamente interditados, produzindo-se, por conseguinte, o abandono do desiderato fundante da História Ambiental: o de (re)ligar natureza e cultura, de mostrar as influências recÃprocas entre as sociedades e seus ambientes, na perspectiva da co-evolução.
Outro ponto que merece reflexão mais acurada é relativo ã escolha da escala espacial dos estudos. O problema da regionalização, familiar aos geógrafos, porém, ainda hoje, difÃcil para os historiadores. Tentar resolvê-lo recorrendo simplesmente a termos como “biomas” ou “bacias hidrográficas” não é satisfatório. Os pesquisadores que apresentaram comunicações sobre história de rios ensejaram debates interessantes sobre esse problema, na medida em que mostraram a diversidade de paisagens naturais e culturais presentes numa única bacia hidrográfica. O mesmo vale para qualquer bioma. Os historiadores ambientais deverão, portanto, debruçarem-se sobre conceitos da Geografia, tais como: espaço, região, território, lugar, paisagem, etc. Aprender a pensar espacialmente, a compreender os rebatimentos espaciais dos processos históricos, a elaborar mapas e construir regionalizações, combinando dados ambientais e sócio-culturais.
Essa “brincadeira” está apenas começando. E promete ser boa.
Por Marcos Lobato Martins, 7 de junho de 2008. Comentários
