Médio Jequitinhonha oriental: o fogo e o boi destruíram a mata atlântica

Há, relativamente ao Nordeste mineiro, considerável quantidade de relatos de viajantes e memorialistas, abarcando os séculos XIX e XX. Por meio desses textos, aspectos importantes da trajetória ambiental da região tornaram-se conhecidos por nós. Há quem considere os relatos de viajantes e de memorialistas como fontes “seguras”, fidedignas, confiáveis, porque baseadas em fatos diretamente observados pelos narradores. Trata-se, é claro, de equívoco evidente, uma vez que as narrativas dos viajantes e dos memorialistas, como as demais fontes históricas, são construções que possuem forte marca de subjetividade. São documentos repletos de intencionalidades, relatos dependentes dos olhares de quem percorreu o espaço do nordeste mineiro mais propenso a enxergar certas coisas do que outras. O exame crítico e acurado dessas fontes revela que, em certos casos, elas foram escritas a partir de notas e convenções de gênero (literário) que se voltavam preferencialmente para o registro de tópicos específicos da situação regional encontrada pelo viajante ou memorialista. O olhar do viajante ou do memorialista também foi influenciado pelas maneiras como eram representadas a Natureza e as paisagens no momento da escrita do relato. Dessa forma, um padre ligado aos aldeamentos indígenas formados na região no século XIX poderia devotar maior atenção aos costumes e práticas das tribos, ao passo que um colono estrangeiro – a exemplo dos alemães que se instalaram no Vale do Mucuri – poderia dedicar mais espaço para a descrição dos usos potenciais dos recursos naturais existentes. Um médico ou um botânico talvez prestasse mais atenção às plantas, descrevendo-as em detalhes, particularmente aquelas consideradas medicinais. Um mineralogista, por seu turno, tenderia a observar as formas de relevo, os tipos de solos, as rochas, as lavras e as técnicas de mineração.

Pedra Azul, centro destacado da modernização da pecuária do Vale do Jequitinhonha no século XX
Pedra Azul, centro destacado da modernização da pecuária do Vale do Jequitinhonha no século XX

Outro ponto interessante, que freqüentemente é desconsiderado, tem a ver com o fato de que muitos relatos foram escritos bastante tempo depois que o viajante ou memorialista percorreu a região. O que significa que, como as transformações ambientais em certas áreas ocorreram com grande velocidade, as descrições das paisagens naturais encontradas pelos viajantes e memorialistas já estariam superadas na época da publicação de seus relatos. Todavia, não há dúvida de que os historiadores ambientais podem aprender muito com os textos dos viajantes e memorialistas, desde que os relatos sejam estudados com afinco e criticidade.

Essas considerações me vieram à mente a propósito do pequeno livro de J. Duarte, chamado O fogo e o boi, publicado em 1976, pela Editora Comunicação, em Belo Horizonte. Trata-se de conjunto de pequenas crônicas relativas à porção leste do Médio Jequitinhonha. J. Duarte fala dos processos de ocupação e exploração econômica das matas virgens ao redor de Pedra Azul, Jequitinhonha, Almenara, Salto da Divisa, Rio do Prado, Rubim, Jacinto, Jordânia, Joaíma, etc. O autor era natural de Sergipe, e viveu na região como fazendeiro e boiadeiro, entre os anos 1921-1924, período no qual percorreu toda a vastidão das zonas marginais ao Médio Jequitinhonha. Fez amigos na região e manteve com ela contato permanente nas décadas seguintes. Pode-se dizer, portanto, que J. Duarte era profundo conhecedor daquelas paragens, acompanhando, como observador engajado, sua trajetória no decurso do século XX.

O fogo e o boi é, antes de tudo, um libelo. Um libelo pelo progresso regional, pelo avanço da pecuária moderna, baseada em técnicas apropriadas de melhoria dos rebanhos e das pastagens do Médio Jequitinhonha. Por isso, J. Duarte combate com paixão a prática secular dos fazendeiros e sitiantes de botar fogo na terra, ano após ano. A queima dos pastos é o principal alvo de sua pena. Queima de pastos que ocorria religiosamente de agosto a novembro, sob as justificativas de que era meio de limpeza, de extermínio de pragas e parasitas, de combate às cobras, economizando roçadas. J. Duarte insiste que essa técnica, herdada dos aimorés, deixava o gado sem alimentos durante meses, enfraquecendo o rebanho, a ponto de provocar perdas consideráveis. O pior, dizia J. Duarte, era que o fogo anual nos pastos e terras de cultura gerava terrenos ressequidos, cobertos de capoeiras e carrascais, ocupados por saúvas, cupins e cascavéis. Aliás, J. Duarte explicita sua admiração pelo escritor Monteiro Lobato, segundo ele o único intelectual brasileiro que havia se levantado publicamente contra a prática nefasta das queimadas.

Segundo J. Duarte, a velocidade de destruição das matas virgens do Jequitinhonha teria aumentado a partir da Primeira Guerra Mundial. Até então, as fazendas da região criavam, sem maior estímulo, gado “crioulo” ou “pé-duro”, solto na larga, rústico e resistente, mas sem qualidades de peso, rendimento e precocidade. Esse gado era vendido com dificuldades nas praças baianas, principalmente nas cidades da zona do cacau, a prazos longos e preços aviltados. De maneira que a expansão das fazendas possuía menor velocidade. Tudo mudou, porém, com as transformações do mercado de alimentos industrializados de que a Primeira Guerra é marco. Os preços da carne aumentaram, favorecendo a introdução, na região, de novidades nas fazendas. Chegou o capim colonião, importado da Bahia (onde era chamado capim Guiné). Também chegaram os bois Gir, Nelore e Indubrasil, trazidos pelos fazendeiros da cidade de Uberaba. Os pastos, então, expandiram-se pra valer, pondo abaixo a floresta. Assim, na década de 1970, J. Duarte escreveu:

“Aqui, neste vale ex-ubérrimo deste rio ex-portentoso, onde capoeiras e carrascais substituíram as matas povoadas de madeiras preciosas, onde a queima dos pastos sempre se estendeu às matas, graças ao auxílio do colonião invasor, em 50 anos de atividade perniciosa, imprevidente e criminosa, os vândalos exterminaram as florestas e acabaram com as faunas silvestre e fluvial” (p. 45).

Num texto quase premonitório, intitulado “Em defesa da Amazônia“, J. Duarte aproveita o episódio controverso da chegada de três cientistas alemães à Amazônia brasileira para dizer que não havia na iniciativa o menor sintoma de colonização; ao contrário, a viagem denunciava preocupação dos estrangeiros com a preservação da Amazônia e previdência, pois o intento deles seria estudar a natureza e o aproveitamento racional do solo. Mais importante: J. Duarte critica o modelo de ocupação da Amazônia baseado no avanço da pecuária, por considerá-lo, simultaneamente, concentrador de renda e destruidor da natureza. Conforme suas palavras:

“Entrando, naquela região de recursos imensos, inesgotáveis ao nosso ufanismo exagerado, a foice, o machado, o fogo e a falange de nortistas acossados pela fome e outros flagelos, em menos de um século, aquele colosso de riquezas naturais estará reduzido à expressão mais simples … sem o mesmo valor” (p. 45).

Para J. Duarte, o que acontecera com a Mata Atlântica, que cobria originalmente a porção oriental do Jequitinhonha, poderia se repetir com a Amazônia!

A parte final do livro O fogo e o boi traz anotações sobre a modernização da pecuária e do comércio de gado no Médio Jequitinhonha, algo que ocorreu com alguma lentidão, mas que vingou graças às iniciativas de grandes fazendeiros de Pedra Azul, Jequitinhonha, Almenara e Salto da Divisa. O autor cita proprietários como Teopompo Almeida (de Pedra Azul), Hermano Sousa (de Almenara), Hermelino Esteves de Assis (Coronel Mili, de Belmonte) e Capitão Marcelino Vicente – sócios nas fazendas Lagedo e Pantanal, em Almenara -, os irmãos Cunha Peixoto (de Salto da Divisa), Antônio Moreira (de Joaíma) e Darwin da Silva Cordeiro (de Almenara). Há indicações importantes sobre as iniciativas desses homens no sentido de melhorar os rebanhos, de industrializar a carne e o leite, de explorar novos mercados consumidores, tanto na Bahia como em Minas Gerais, para o que chegaram a abrir por conta própria estradas. Na verdade, essa história da pecuária no Médio Jequitinhonha está por ser escrita.

Enfim, o livro de J. Duarte, O fogo e o boi, é leitura que instiga a reflexão sobre o Vale do Jequitinhonha. E sua atualidade está também nos alertas que faz sobre o papel destrutivo da pecuária extensiva que avança na direção das áreas de florestas. Caso, nesse momento, da Amazônia.

Para quem se interessar, há exemplar do livro na Biblioteca Pública Estadual Luis de Bessa, situada na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.

Por Marcos Lobato Martins, 8 de junho de 2008.  8 Comentários

8 respostas para ' Médio Jequitinhonha oriental: o fogo e o boi destruíram a mata atlântica '

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  1. eluza duarte leite escreveu,

    em junho 24th, 2008 às 01:29

    Professor Marcos, foi com profunda surpresa e emoção que naveguei em seu excelente weblog e me deparei com referências positivas ao livro ” O Fogo e o Boi” do meu querido e saudoso avô J. Duarte.Permita-me falar um pouco deste homem singular que lhe chamou atenção pelos seus escritos já esquecidos pela crítica. Peço-lhe desculpas por me alongar nas considerações. É que me é impossível falar de forma resumida desta grande figura que permanece viva em meu coração, inspirador permanente de minhas ações.J.Duarte, como era conhecido, foi um cidadão no seu sentido mais nobre, um tipo inesquecível para todos os que o conheceram e,em especial, para nós, os seus descendentes.Era um sergipano bom de briga, referência de integridade, coragem e decência, um homem que lutou e dedicou grande parte de sua vida ao desenvolvimento de Almenara e de sua gente naquele Vale distante e esquecido dos governantes. Sobre ele falou uma de suas netas, minha irmã, Eliana: – ” Uma de suas características: a memória prodigiosa aliada a uma inteligência lúcida e pouco comum. Nascido no final do século passado, sabia de fatos da República velha que a própria História não registrou. De Floriano a Getúlio, era conhecedor em profundidade, tornando-se centro das atenções em qualquer conversação onde o assunto fosse a vida de nossos grandes estadistas. O homenzinho, porém, não parava por aí.

    Antes da conscientização atual pela defesa do meio ambiente, já o nosso herói defendia, com todas as armas possíveis, a fauna e a flora de sua comunidade. “Queimou até o último cartucho” (expressão dele), em defesa dos Ipês e Jacarandás, abundantes na região e queimados até como lenha nos fogões de barro. Brigou em defesa das florestas. Escrevia, no jornalzinho local, artigos doutrinários apontando o egoísmo dos que pescavam com bombas, prateando o leito do grande Jequitinhonha de peixes mortos, quando talvez precisassem de meia dúzia deles. Contra os que caçavam sacolas cheias e perdizes e inhambus, quando duas ou três já bastavam para garantir o alimento da família. Batalhou anos a fio contra o uso do ferro em brasa na marcação das boiadas, sugerindo que talvez um carimbo fizesse o mesmo efeito. Suas brigas por um tratamento mais humano aos presos da imunda cadeia local, pela assistência aos mais necessitados, seus espetáculos beneficentes (onde era ele próprio o artista principal), sua preocupação constante com os direitos humanos, culminaram com sua prisão na época da ditadura. Motivo alegado: idéias revolucionárias.
    Suas estórias, sua vida, estão retratadas em sua obra literária. Sobre ” O Fogo e Boi” falou o saudoso escritor, jornalista e professor,Alberto Deodato:
    “… Fique certo que no “O Fogo e o Boi” você disse muita coisa desses anos vividos, da terra e o rio que o acolheram. O seu amor por aquele mundo lhe dá o pavor de que tudo aquilo desapareça. Que o rio seque. Que as árvores se queimem. E a região mais bonita e mais rica destas terras se transforme em isolamento e dor. Esse livro não tem apenas a graça literária. É uma previsão dramática. Aponta os erros. Convoca os criadores para a reação. Mostra a todos nós o que devemos fazer para proteção dos produtos da carne e para o rio continuar a correr, com as árvores que dão sombra e as pastagens ricas que alimentam a gadama roliça e linda, orgulho da pecuária nacional “.
    Autodidata, com apenas o curso primário incompleto, nosso tipo querido e inesquecível chegou à Academia Municipalista de Letras com quatro livros publicados. Era então um escritor este homem que procurei lhe dar uma idéia, apagada que seja? Não. Fazendeiro foi o que foi a vida toda, com absoluto e pleno conhecimento da terra.
    Dele e de seus livros falaram Oscar Mendes e Alberto Deodoro, Aires da Mata Machado, Saul Martins, Antonio Azevedo, José Clemente, Nelson e Faria… elogiando-lhe o domínio da língua, “manejando-a com acerto e equilíbrio”. Chamaram-no de “um fazendeiro escritor”.

    Obrigada, Professor por esta grata surpresa e justa homenagem a este grande cidadão chamado José de Côrtes Duarte, o fazendeiro-escritor, de Almenara, pernambucano amineirado que nos brindou com livros magistrais sobre figuras e histórias de Minas Gerais como “Vultos sem História,” CrÕnicas Quadradas ”, e “O Fogo e o Boi”. Vou dormir hoje em paz sabendo que sua luta, suas idéias, seus escritos foram redescobertos por um grande historiador mineiro. Forte abraço, Eluza Duarte Leite


  2. em outubro 24th, 2008 às 09:21

    O texto além de agradável parece sintetizar bem o conteúdo da obra de Duarte. Dessa forma, serei obrigado a fazer uma leitura desse autor. Senti falta da expressão cunhada por outro autor: “mata de tocos”, que poderia descrever o avanço da degradação ambiental na porção leste-nordeste mineira.

  3. Cláudio Bento escreveu,

    em abril 7th, 2009 às 09:26

    Ainda no início dos anos oitenta li maravilhado o livro O Fogo E O Boi, de J. Duarte, um libelo de revolta e também de denúncia de uma região do Vale do Jequitinhonha destruída pela ação do homem.

  4. Regiane escreveu,

    em setembro 4th, 2009 às 18:10

    Dê uma olhada neste artigo,

    Aparece um parente do pai

    Rodrigo


  5. em novembro 24th, 2009 às 10:32

    Pelos depoimentos dos que leram ” O Fogo e o Boi”
    fiquei vivamente interessado no livro, já que o autor defende a proteção ambiental para regiões ainda não prostituidas pela avidez do lucro. Merece ser lido esse livro.

  6. neusa c. guimaraes escreveu,

    em março 12th, 2010 às 23:25

    Gostaria de ter um contato com pessoas que conhecem a realidade das pessoas menos favorecidas da região do Vale do Jequitinhonha.

    Muito Obrigada!
    Neusa Guimaraes

  7. paulo mello escreveu,

    em julho 10th, 2010 às 21:41

    Coronel Mili, hermelino e meu bisa, pai da minha avo paterna alice de assis melo,fico feliz pela lembran;a e triste pela nossa mata atlantica q tanto tem sofrido apos a queda do cacau,sem mais, Paulo J. Silva Mello.

    10-07-2010

  8. Joaquim Guerra escreveu,

    em novembro 22nd, 2010 às 02:06

    Gostaria de ter notícias do fazendeiro Antonio Moreira e seus familiares em Pedra Azul.

    Agradece, Joaquim Octavio Guerra-
    Carpina- Pernambuco
    tel: 81 88229267 81 36213602

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