A regionalização do passado mineiro é um desafio
Todo mundo conhece a frase de Guimarães Rosa: “Minas são muitas”. De fato, nosso estado mediterrâneo é bastante diverso e há quem diga que ele é uma síntese do Brasil. Somos repletos de regiões diferentes, polarizadas por centros distintos: Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e até Brasília. Na minha infância, era comum os moradores de Pedro Leopoldo e adjacências, à maneira dos habitantes da Capital, referirem-se ao trem expresso que vinha de Montes Claros como o “trem dos baianos”, para o qual olhávamos com misto de curiosidade e desdém.
Tempos passados, de maior regionalismo. Regionalismo que desempenhou papel significativo na política mineira. O clássico trabalho de John Wirth, O fiel da balança: Minas Gerais na Federação brasileira, 1889-1937, publicado pela Paz e Terra em 1982, explorou a relação complexa entre disputas zonais e unidade estadual na política mineira da Primeira República. Para John Wirth, a despeito das marcantes diferenças sub-regionais, a política interna mineira enveredou rumo a elevado grau de unidade no âmbito da Federação, fato gerador da estratégia de buscar no governo federal, por meio da manipulação de recursos políticos, os recursos econômicos de que o estado carecia. Essa estratégia teria dado certo por duas razões principais: de um lado, a capacidade de organização política das elites mineiras, destacando-se o papel do PRM (Partido Republicano Mineiro) e, de outro lado, o compartilhamento de certas condições sociológicas fundamentais – o agrarismo, a vida nas pequenas cidades, o particular senso de lugar e família, o relativo desenvolvimento econômico que disponibilizava certa parcela de recursos para compor alianças sub-regionais.
Minas não era, portanto, tão desconjuntada quanto outra unidade política formada a força, e tardiamente. Refiro-me com liberdade poética à bela Itália, também tão diversa e onde todos parecem estar contra todos, tema de curioso artigo de Nelson Motta na edição de 27 de junho da Folha de São Paulo. Conforme Motta, o forte regionalismo italiano teria sido escancarado por uma iniciativa da rádio Radicale, nos anos 1980. A emissora abriu para o público seus telefones e secretárias eletrônicas durante um mês, para que cada pessoa se manifestasse livremente, com a única condição de identificar o lugar de onde falava. E depois colocou todas as mensagens no ar. Segundo Motta, “foi a maior coleção de insultos, ofensas, blasfêmias e vitupérios que a Itália já ouviu. Um assustador, e hilariante, festival de ódio”. Os napolitanos xingaram os milaneses, os romanos esculacharam os sicilianos, os turineses esbravejaram contra os venezianos, todos atacaram os florentinos. As rivalidades regionais vieram à tona com força e amargura, expressas em diferentes sotaques. O que sugere que faltaria à Itália o “cimento de unidade política” fabricado pelas elites mineiras.
Ora, não levemos tão a sério essa coisa da “identidade mineira”, da mineiridade, da solidariedade política que atravessa todas as sub-regiões de Minas Gerais. É bem verdade que o maior partido de Minas é o Palácio da Liberdade e que ficaram para trás as propostas de divisão elaboradas no final do século XIX (a Província do Triângulo, liderada por Uberaba, na década de 1870; a Província de Minas do Sul, objetivo da revolta iniciada em Campanha, em janeiro de 1892, para ficar somente com dois casos). Todavia, para o historiador dedicado ao estudo dos séculos XVIII e XIX, resta um desafio. O problema difícil de examinar os rebatimentos espaciais dos processos históricos mineiros.
Dito de outra forma, a questão de reconstruir o espaço do passado, as regionalizações apropriadas para compreender a história multifacetada da Capitania e da Província de Minas Gerais. Minas sempre foi muitas. Como regionalizar seus processos históricos? Com quais critérios e escalas recortar a superfície mineira quando estudamos o passado dessa terra mediterrânea? Na ampla maioria dos estudos históricos, essa questão passa batida, de maneira que os pesquisadores terminam
empregando recortes administrativos ou as linhas demarcatórias das regiões de planejamento utilizadas pelo Governo nos dias atuais. Isso significa ficar à beira do precipício do anacronismo.
É hora dos historiadores que lidam com essa Minas Gerais tão diversa incorporarem às suas tarefas já tão difíceis a reflexão acurada sobre o espaço construído pelas sociedades mineiras do passado. Sobre esse tema, tomo a liberdade de apresentar texto de minha autoria que será discutido no próximo Encontro Regional da ANPUH. Mais precisamente no dia 25 de julho, dentro do Simpósio Temático “História Regional: o Norte e o Nordeste de Minas no final do Império e na República” (ver texto Regionalidade e História: reflexões sobre a regionalização nos estudos historiográficos mineiros).
Por Marcos Lobato Martins, 28 de junho de 2008. 1 Comentário


em novembro 29th, 2008 às 10:03
Geeente! Pesquisando pela net uma boa explicação para Minas ser dividida tal qual ela é, encontrei citação de Pedro Leopoldo! Oh, não moro no fim do mundo!
Parabéns pelo blog.
Abraço!