Outono, preguiça e vida nova.
Abençoados dias de outono. Vocês, meus poucos leitores, puseram reparo na manhã de ontem? O sol brilhava forte, mas a temperatura era agradável à sombra. O céu estava azul, tão azul que feria os olhos. Por ele voavam bandos de maritacas, desenhando pontas de flechas escuras no elevado do ar. Havia poucas nuvens, espalhadas a esmo. Umas compactas e branquinhas. Outras com pesos de prata, a funcionar como lembretes de que ainda poderá chover. E o céu sobre o sul da cidade, nas primeiras horas da manhã, cheio de fios esbranquiçados de fumaça, qual nuvens magrinhas e compridas, vermes no céu, parecia oficina de panos tocada por tecelã descuidada, ou melhor, iniciante, aturdida pela trama difícil das fibras, enrolada por causa de sua falta de jeito. No chão, após tanta chuva, chuva que já me dava nos nervos, os morros apareciam verdinhos, as ruas e os telhados lavados. Os cães, entretanto, estavam mais agitados que de costume – latiram a noite toda. Dia de outono, friozinho de madrugada que convida a ficar mais tempo na cama.
Eu penso que o outono deve ser descuido do Deus dos doutores da Igreja. Porque o outono pede preguiça, passos medidos, gestos delicados, trabalhos sem pressa, para dar tempo à natureza de refazer seus ciclos. O outono pede preguiça, afinal as sementes foram postas na terra, de modo que resta apenas esperar pela safra. Enquanto se espera, há que animar festas de roça, dançar folguedos antigos, espiar a formosura das moças núbeis. Sentar no banco da praça em pose de boneca namoradeira do Vale do Jequitinhonha. O jeito tépido do outono ainda atiça a sensualidade dos corpos, excitada pela aproximação pesada do inverno, época de casacas e botas enormes. Nessas condições, a contemplação fica interditada no outono, enquanto a preguiça campeia. Por isso Deus fez o inverno, e as formiguinhas que se preparam para longos invernos, que duram vidas inteiras.
Curiosa a nossa relação com a preguiça. E, por tabela, com o outono – a menos cantada das estações do ano. Os doutores da Igreja desejaram a contemplação, enquanto transformaram a preguiça num pecado. Para eles, o trabalho é um castigo que desvia nossa energia da contemplação direta da obra de Deus. Mas o trabalho é necessário, restando para o tempo livre o dever da contemplação, da oração, da constrição. Surgiram até mesmo as ordens monásticas que laboram e rezam, rezam e laboram, arranhando a superfície da Terra. O bom mesmo seria – conforme os doutores da Igreja – contemplar, dia e noite, as obras de Deus e, nesse caso, viver de vento, sol e chuva, como não souberam fazer Adão e Eva. Como quem sabe poderemos voltar a viver, caso nos esforcemos o bastante, na companhia dos anjos depois da morte.
A Igreja Católica, guiada por seus teólogos admiráveis, não tem apreço pela preguiça. Contraditoriamente, os militantes da esquerda, arautos de uma igreja sem transcendência, também execram a preguiça. O esquerdista tem o dever diuturno de laborar pela causa, de militar pelo partido, de levar luzes para as massas. A vanguarda política não pode descansar, cruzar os braços para ver manhãs de outono. O esquerdista é empregado da Revolução – empresa exigente, mais do que qualquer multinacional que o leitor conheça. É verdade que Marx escreveu, num trecho famoso de “A Ideologia Alemã”, que a sociedade comunista torna “possível que eu faça hoje uma coisa e amanhã outra, que cace de manhã, pesque de tarde, crie gado á tardinha, critique depois da ceia, tal como me aprouver, sem ter de me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico”. Entretanto, é sempre de trabalho, de tempo ocupado com alguma finalidade útil, que Marx fala. Por isso, justamente, também é verdade que Marx não deu importância para o texto de seu genro, Paul Lafargue, que falava da força revolucionária do ócio. Entre os esquerdistas, a idolatria do trabalho substituiu a idolatria da contemplação que dominava os doutores da Igreja. Assim, continuou não havendo espaço para a preguiça.
Quanto aos conservadores, aos ideólogos direitistas, eles nunca quiseram saber da preguiça. Desde Bonald, Joseph de Maistre, Edmond Burke a Charles Maurras, eles dizem, com mais ardor do que a Igreja, que a moralidade pública e individual é função do trabalho sério, diligente, produtivo, planejado. A solidareidade comunal está estribada no bom uso do tempo e no zelo pelas tradições. A riqueza depende do trabalho, e a riqueza é sinal inequívoco de sucesso. A ordem social também depende do trabalho disciplinado, da hierarquia laboral. Os direitistas modernizadores desejam mercado, ordem e progresso. Preguiça não, mas lazer e turismo servem – porque geram oportunidades de mercado e podem ser submetidos facilmente à lógica da produção industrial.
A civilização fala mal da preguiça. Imagina-se construída contra a preguiça. Todavia, os bois e as vacas têm preguiça. O vira-latas na porta da venda esmorece na preguiça. O sertanejo tem preguiça. O barranqueiro mais ainda. O caiçara tem preguiça. A mulher de vida pública também. O professor tem preguiça de corrigir pilhas de provas, muita preguiça mesmo. E, dito entre os dentes, baixinho, o mineiro costuma bancar o preguiçoso. Melhor confessar já: quero viver como coronel personagem de Jorge Amado, noves fora a crueldade e o mandonismo. Quero a civilização do Bataclã. No decurso de uma vida, os outonos são tão poucos. Quero poder ter preguiça para ver as manhãs de outono. Ainda mais porque, pelo que andei lendo, no céu não tem outono: o tempo é um só, como climatização de aeroporto internacional. E, no inferno, há apenas verão abrasador.
Nas manhãs de outono, bonitas como a de ontem, quero poder contemplar uma fachada ou uma criança brincando sem ter preocupação com perder o ônibus. Quero de volta algumas horas para a flânerie, para usar livremente no aprendizado da cidade. Todo homem deveria retornar ao que escreveu Sêneca no início da era cristã, na obra Sobre a brevidade da vida (São Paulo: Nova Alexandria, 1993): “é ocioso o que é consciente de seu lazer”, enquanto “os ocupados não vivem a vida, eles simplesmente deixam-se existir e calculam o tempo apenas pelo relógio e não pela vida interior”. Ora, não há vida interior sem um cadinho de preguiça.
(Artigo publicado no jornal Folha de Pedro Leopoldo, edição de 11 de abril de 2008.)
Por Marcos Lobato Martins, 18 de abril de 2008. 1 Comentário


em julho 1st, 2008 às 18:54
Adoro o outono e as manhãs azuis. Como um flâneur, também gosto de caminhar sem pressa observando rostos e paisagens. As manhãs no Campus UFMG são lindas e convidam para a preguiça. E um cadinho de preguiça é bom…
Abraços,
Cristiane
(seu e-mail continua o mesmo? enviei um e-mail na sexta, para o endereço do hotmail).