O Médio Jequitinhonha e o acordo dos usineiros com o governo paulista
Pelas bandas de Minas Gerais, pouca gente notou a importância do acordo celebrado entre o setor sucroalcooleiro e o governo paulista, assinado há algumas semanas no Palácio dos Bandeirantes. Pelo acordo, as metas ambientais relativas ao setor foram antecipadas para 2010, o que significa o compromisso das grandes usinas paulistas de eliminarem a queima de canaviais na operação de colheita até aquele ano. O referido compromisso adianta o cronograma de mecanização do corte de cana em São Paulo, atividade que, hoje, emprega contingente numeroso de bóias-frias, a maioria originária de Minas Gerais e de Estados do Nordeste.
Conforme matéria publicada na Folha de São Paulo, no caderno “Dinheiro”, em 11 de abril, calcula-se que, até 2010, serão extintos cerca de 110 mil postos de trabalho na colheita da cana em todo estado de São Paulo. É verdade que se trata de trabalho muitíssimo pesado e que os cortadores de cana encontram condições duras de alojamento, alimentação e atendimento de saúde no campo paulista. Tampouco a remuneração é lá essa maravilha. A situação dos cortadores de cana chega, freqüentemente, a ser a de trabalho degradante, o que faz muita gente lembrar dos tempos de escravidão. Todavia, para milhares de brasileiros de áreas pobres do Vale do Jequitinhonha e do interior nordestino, a chamada “experiência paulista” constitui uma estratégia de sobrevivência.
No caso do Médio Vale do Jequitinhonha mineiro, desde os anos 1960 a migração sazonal de trabalhadores rurais para fazendas de cana e de café no território paulista só faz intensificar. Milhares de jovens e adultos saem de suas cidades em março/abril para retornarem somente em dezembro, trazendo para casa as economias juntadas na lida estafante com a cana nas usinas da área de Ribeirão Preto, principalmente. No ano de 2003, para se ter uma idéia, os municípios de Berilo, Francisco Badaró, Minas Novas e Chapada do Norte tiveram aproximadamente 45% de suas populações adultas masculinas envolvidas nesse trânsito. Em Berilo, município com cerca de dez mil habitantes, isso significou que 3.000 homens tomaram o rumo dos canaviais paulistas. Ao longo de décadas, as economias domésticas e municipais no Médio Jequitinhonha tornaram-se dependentes da migração sazonal dos cortadores de cana. Ao lado das transferências governamentais resultantes de programas como o “Bolsa Família”, os rendimentos dos cortadores de cana do Vale sustentam o comércio de suas localidades de origem e, até mesmo, os pequenos investimentos das famílias camponesas em máquinas, veículos, gado e aquisição de parcelas de terras. O trabalho sazonal nos canaviais paulistas é uma espécie de válvula de escape que mantém sob controle as tensões no interior das unidades camponesas, garantindo sua reprodução social. Como sabem os moradores de Araçuaí ou Minas Novas, os jovens que retornam do interior paulista trazem novos hábitos, gostos e objetos de consumo, iniciando “febres” de aspirações materiais entre os adolescentes locais, as quais só encontram satisfação com a integração desses nas correntes de migrações sazonais.
Tudo isso é bem conhecido por demógrafos, antropólogos e economistas, tanto mineiros quanto paulistas, que há anos estudam esse fenômeno no Vale do Jequitinhonha. Mas agora há um desafio urgente. O acordo entre os usineiros e o governo de São Paulo coloca data terminal para esse trânsito de cortadores de cana que já é parte da paisagem do Vale do Jequitinhonha. A curto prazo, a válvula de escape será definitivamente fechada. Os migrantes sazonais do Médio Jequitinhonha não terão mais como obter renda no interior paulista. Quais serão as conseqüências sobre a economia e o tecido social dos municípios dessa região? Será preciso encontrar meios de ocupar e de gerar renda para milhares de homens, jovens e adultos, em Araçuaí, Minas Novas, Berilo, Francisco Badaró, Chapada do Norte, Novo Cruzeiro, etc. Do contrário, as pequenas cidades e os arraiais do Médio Jequitinhonha poderão viver o caos econômico-social.
Parece que nem as autoridades locais e nem o governo mineiro se deram conta do tamanho e da urgência da encrenca que têm nas mãos. E é absolutamente equivocado pensar que, num passe de mágica, o estímulo ao turismo e ao rico artesanato regional será suficiente para gerar tantos postos de trabalho. Muito menos a agricultura camponesa, na situação em que se encontra hoje – atrelada umbilicalmente aos diminutos mercados locais e com pauta fortemente culturalizada de produtos – poderá absorver toda essa gente que será liberada pelos canaviais paulistas. A gravidade do cenário fica ainda maior quando se levam em conta variáveis políticas, tais como: a) falta de quadros técnicos capacitados nas prefeituras para desenhar, implantar e avaliar políticas públicas; b) tradição regional de lutas intermunicipais por recursos estaduais e federais, de modo que a ação consorciada dos municípios é absolutamente incipiente; c) e a permanência do mandonismo, do clientelismo e da corrupção como traços endêmicos da política na região.
Os paulistas colocaram o desafio. Pode até ser razoável pensar que eles também deverão cooperar para encontrar as soluções. Afinal, os humildes braços jequitinhonhenses contribuíram bastante para a riqueza do setor sucroalcooleiro paulista. Porém, o Jequitinhonha mineiro tem que se mobilizar, discutir o quadro atual e os possíveis cenários decorrentes do acordo paulista, e começar a trabalhar para pôr o Vale do Jequitinhonha no rumo do desenvolvimento. Será necessária muita criatividade. Será preciso pensar em termos de planejamento territorial. E será preciso fazer investimentos expressivos no Vale. Porque as populações locais não conseguirão viver somente de música “folclórica”, de tecer rendas de algodão, de cozer cerâmicas de barro, de fabricar cachaça de alambique e queijo de cabacinha, vendendo esses produtos na beira das estradas que cortam a região.
Por Marcos Lobato Martins, 13 de abril de 2008. 4 Comentários


em abril 18th, 2009 às 20:17
Eu gostaria de falar de adorei o artigo, e solicitar ao autor se ele tiver material sobre o assunto envie para mim, pois também estou fazendo uma pesquisa sobre o mesmo.
aguandado anciosa o retorno, agradeço desde já.
em setembro 15th, 2009 às 18:32
Gostei muito do artigo. Trabalho com pesquisa a respeito de agricultores familiares no município de Minas Novas (VAle do Jequitinhonha) e é nítida a preocupação dos agricultores que normalmente saem para o corte de cana. Gostaria que se for possível, o autor me enviasse informações a respeito deste processo. Obrigado
em março 6th, 2010 às 21:52
Desde 2006 convivo com essa realidade no Vale do Jequitinhonha:a migração sazonal para o interior paulista, principalamente em função da colheita da cana-de-açúcar. Trabalho viajando pelos municípios do Vale e obsevo esse fenômeno que ocorre todos os anos. Escutei muitas histórias e muitos “causos”, a maioria tristes. São histórias de mães que perderam seus filhos, das viúvas de marido vivo (uma vez que os homens vão pra São Paulo, permanecendo na colheita quase o ano inteiro), de jovens que se envolveram com as drogas…..
É preciso criar uma alternativa para os moradores do Vale. Décadas se passaram e nada foi feito. Talvez a solução venha das próprias comunidades locais, pois sempre houve a ilusão de que algum político do Governo do Estado de Minas Gerais ou do Governo Federal intercedesse por essa região, mas o que vemos até agora foram apenas promessas. Gostaria que me fosse enviado material a respeito desse assunto.
em abril 28th, 2010 às 20:52
Eu sou do vale do Jequitinhonha moro na cidade de Carai e lá tambem sai muitos jovens para esse trabalho pq nossa cidade não tem emprego para eles trabalharem o que podemos vazer para mudar esse quadro.