Lapinha da Serra: outra vítima mineira do turismo predatório

Diversos estudantes da Faculdade de Direito de Pedro Leopoldo me falaram sobre a maravilha que é a Lapinha da Serra, distrito de Santana do Riacho situado aos pés do Pico do Breu, o ponto mais alto da Serra do Cipó, com seus 1687 metros. Aproveitei o feriado de Tiradentes para conhecer o lugar. Não gostei nada do que vi.

Rpresa da usina Coronel Américo Teixeira. Lapinha da Serra.
Represa da usina Coronel Américo Teixeira. Lapinha da Serra.

As paisagens e atrativos naturais são de grande beleza. Mas tanto elas como o vilarejo, cuja população fixa gira em torno de 300 habitantes, estão sob grave ameaça. O que ocorre na Lapinha da Serra é turismo de massa, absolutamente insustentável, destruidor dos atrativos naturais e culturais que fizeram, a partir dos anos 1980, a fama do lugar. Nesse outrora “espaço de reserva de valor”, distante e pouco acessível, a exploração turística instala-se com voracidade, causando total revolução no lugar, que adquire nexos sofisticadamente urbanos. Com as pousadas e as casas de turistas, com os carrões e a parafernália eletrônica que acompanha os visitantes, ocorre desabusada imposição de novos costumes que aceleram a desarticulação da cultura local. Em Lapinha da Serra, o “global” vampiriza o “local”. Lapinha da Serra tem sido explorada inescrupulosamente, transformada numa espécie de condomínio aberto à visitação de jovens urbanóides de corpo tatuado. Um híbrido esquisito de condomínio e acampamento hippie, que envolve os resquícios de uma povoação sertaneja.

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Bar em Ruela de Lapinha da Serra - Foto: Mauro Lobato

A economia e o modo de vida da comunidade, tradicionais e frágeis, foram e continuam sendo abalados pelo contato com o turismo. O minúsculo vilarejo, cujo início de povoação remonta ao século XVIII, caracterizou-se ao longo de três séculos por ser relativamente fechado, vivendo da agricultura e da pecuária. Os poucos excedentes de rapadura, cachaça, farinha e queijo eram vendidos por meio de tropas de burros em núcleos urbanos vizinhos (Conceição do Serro, Morro do Pilar, Jaboticatubas e Riacho Fundo, atual Santana do Riacho). Apenas trilhas de tropa ligavam o povoado com a sede municipal, distante cerca de 11 km. Somente em 1999 foi aberta estrada de terra ligando Lapinha da Serra a Santana do Riacho. Por isso mesmo, a localidade contava setenta casas na última década do século passado, conservava suas belezas naturais e tradições seculares. As festas religiosas, como a de São Sebastião e de Santa Cruz, e o batuque, que era a diversão semanal dos moradores, possuíam enraizamento e vivacidade. E havia a tranqüilidade e hospitalidade da população que, aliadas às cachoeiras, fizeram do lugar um destino turístico cobiçado. O afluxo crescente de visitantes, desde os anos 1990, alterou drasticamente o quadro local.

Nos anos 2000, parcelamentos de terras em Lapinha da Serra permitiram a instalação de novos moradores e de pousadas. Brotaram construções de todo tipo, uma mistura de estilos indizível que engole as antigas residências dos “nativos”. As construções nos lotes pequenos que dão para as ruelas de terra do povoado transmitem a sensação de saturação do ambiente, agravada pela evidente falta de infra-estrutura. Nem as áreas de preservação permanente, como as encostas do lago da represa, foram poupadas: edificações residenciais e pousadas privatizam esses espaços. As placas indicativas são raras, bem como as lixeiras. Nos caminhos e trilhas do lugar circulam livremente, chegando até os corpos d’água, animais (cães e cavalos). Botecos e bares estão em toda parte, principalmente no largo que abriga a antiga capela de São Sebastião, hoje completamente descaracterizado. Tanto as famílias “forasteiras” que têm casas em Lapinha da Serra, quanto os jovens que a visitam e que alugam casas baratas para o pernoite, pouco gastam no local. Trazem consigo mantimentos e bebidas. Em ocasiões como Ano Novo e Carnaval, o lugarejo fica entupido de veículos, praticamente intransitável.

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Centro de Lapinha da Serra

Dessa forma, os impactos negativos desse tipo de turismo saltam aos olhos. O primeiro sacrificado é a tranqüilidade local: gente em demasia, poluição sonora. Outro é o modo de vida tradicional, cujos hábitos locais são confrontados pelos que chegam com os visitantes. Por isso, há uma grande placa próxima ao largo da velha capela que pede aos turistas que evitem o uso de trajes de banho por toda localidade, algo que choca os moradores mais velhos. Ela representa um grito desesperado, quase um pedido de socorro. Há o problema das drogas e a questão das “formas avançadas” de sexo, praticadas por casais de visitantes. Muitos “nativos” podem ser vistos bêbados entre os turistas, oferecendo-se para pequenos serviços a troco de algumas moedas. Enfim, a exploração turística atual de Lapinha da Serra tende a torná-la sem valor para os negócios turísticos brevemente. As faces mais visíveis do “turismo ecológico” em Lapinha da Serra são a desorganização, a visão de curto prazo e a marginalização dos moradores.

Algo que já vimos em outros lugares de Minas Gerais. Cito o exemplo de Milho Verde, distrito do Serro, para ficar apenas com áreas pertencentes à grande cadeia do Espinhaço. A única maneira de reverter esse quadro é exigir a intervenção estatal. Cabe ao Estado aplicar as ferramentas do planejamento e gestão territorial para reorientar os rumos da atividade turística. O curioso é saber que Lapinha da Serra integra a APA Morro da Pedreira, mas, mesmo assim, praticamente nunca recebeu atenção do IBAMA. A Polícia Ambiental, sediada em Lagoa Santa e contando com poucos homens e recursos, mal consegue fiscalizar a área e controlar as agressões que ela sofre. Da Prefeitura de Santana do Riacho, cidade com 3.700 habitantes (dos quais um terço reside na zona rural), pouco se poderia esperar. A comunidade de Lapinha da Serra, por sua vez, precisa de ajuda para se mobilizar, para investir no resgate de sua auto-estima, na valorização de sua cultura e de seu patrimônio. Quem sabe até para se convencer de que o turismo deverá ser apenas um elemento importante da economia local, ao lado da agropecuária, da produção artesanal e – por que não? – dos serviços ambientais.

Por Marcos Lobato Martins, 23 de abril de 2008.  17 Comentários

17 respostas para ' Lapinha da Serra: outra vítima mineira do turismo predatório '

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  1. Tetê escreveu,

    em maio 21st, 2008 às 11:06

    Lobato, a Lapinha da Serra é lugar fascinante que reserva para seus visitantes as mais belas e agradáveis paisagens de Minas Gerais, mas não estava preparada para suportar uma quantidade muito grande de turistas, principalmente os de Pedro Leopoldo que só vão para curtir os embalos das drogas, sexo e Rock`n Roll, paisagem que é bom, nada. Se não a preservarmos, ir á acabar!

  2. Daniel Araújo escreveu,

    em dezembro 25th, 2008 às 10:59

    Passei pelo Arraial do Cabeça de boi em Itambé e estava tudo mudado, cheio de casas modernas quadradas e coloridas, fiquei sabendo que no carnaval a vila fica lotada de carros, aquela coisa. Já atravessei de Lapinha pra Tabuleiro, a gente encontra lixo pelo caminho, no meio da serra! Já encontramos lixo em tudo quanto é lugar afastado, falta de noção total, aí a gente tem que levar duas vezes mais lixo.
    A cachoeira do tabuleiro então fica parecendo um clube. Achamos na cachoeira do Congonhas uma taça de vidro quebrada, escondida entre as pedras. Inacreditável.
    abraço!

  3. Ronaldo Augusto Gomes da Silva escreveu,

    em dezembro 26th, 2008 às 13:05

    Li seu texto sobre o turismo predatório na Lapinha e apesar de nos arremeter a um fato assustador é lamentavelmente uma realidade mundial.
    Ter-se consciência que somos todos parte integrante de um ecosistema, que cada ação direta de um indivíduo ao meio ambiente gera resultados danosos ou positivos é uma questão cultural.
    O turista que descarta sua latinha de cerveja por uma trilha na serra é o mesmo que joga um papel de bala em uma via pública em sua cidade de origem.
    Resumindo-se esse triste quadro “somos os presunçosos animais na escala evolutiva que acham que todo universo existe em função deles pelo simples fato de poderem intervir diretamente em toda natureza!Mas a resposta nos é dada, seja a curto ou longo prazo _ vide o clima, qualidade do ar e da água…
    QUE PLANETA DEIXAREMOS PARA OS FILHOS DOS NOSSOS FILHOS?

  4. Vinícius escreveu,

    em maio 5th, 2009 às 22:59

    Parabéns pelo texto. Absurdo que acontece na lapinha hoje, visito a lapinha tem 12 anos, infelizmente que se vê são pessoas drogadas que por diversão invadem a serra com fins de ” zoar”.
    Á magia da natureza da lapinha e de seus moradores acabou, ABRAÇOS…..

  5. ana maria escreveu,

    em novembro 14th, 2009 às 10:56

    Tive o grande prazer de conhecer lapiha da serra no feriado de finados, maravilhoso, o que mais me surpreendeu foi que as pessoas a nossa volta,nao carregavam seus lixos de volta pra ksa nem sequer para os latoes expostos na cidade( embora pensei pra onde eles vo colocar tanto lixo?)concordo com td que li aqui.. soube por uma amiga de vespasiano que a galera deles tomam banho no manancial de onde estao canalizadas a agua para beber na cidade, fiquei revoltada com a falta de respeito com os moradores e com as leis locais…

  6. Roberto Luiz escreveu,

    em janeiro 21st, 2010 às 13:05

    Estive em Lapinha da Serra em Dez/09. Lá é o local em que eu imaginava viver. Fiquei sabendo dos moradores de lá, do inferno que se transforma nos feriados de carnaval e ano novo. Tenho então que ter uma casa em BH, para fugir desses malucos que invadem o local nos grandes feriados.

  7. evandra escreveu,

    em fevereiro 1st, 2010 às 14:03

    O que tenho pra dizer a nao ser que É LAMENTÀVEL o que estamos fazendo com nosso planeta, so não podemos nos esquecer de que a natureza cobra e o preço nao e barato.serà que teremos como pagar?

  8. Ligia Pawlow escreveu,

    em fevereiro 9th, 2010 às 12:42

    O errado não é ter nascido em cidade grande e tatuar o corpo, o erro ta em não respeitar o próximo e a nossa mãe natureza.

  9. Andrea escreveu,

    em março 16th, 2010 às 17:30

    Sou Bióloga,nasci em Lapinha da Serra concordo prenamente com as questoes tratadas no texto.

  10. Gleisson Luiz Almeida Pardinho escreveu,

    em setembro 3rd, 2010 às 10:54

    Gosto muito daquele lugar e não tem outra maneira se não houver intervenção dos órgãos públicos pq infelizmente esperar de cada um bom senso é complicado. Essa galera com valores ridúculos que vão pra lá pra bagunçar o lugar. O pior nem seria isso pq com medidas a curto prazo ach0 que daria pra resolver, o pior é a construção desenfreada, condomínios de luxo que mais cedo ou mais tarde vão cercar boa parte do lugar. Assim os turistas perderão o direito de ir e vir. Não demora eles cercarem uma cachoeira como área particular ou até mesmo começarem a cobrar entrada como exemplo o véu da noiva na serra do cipó. Fico muito triste mais infelizmente o poder público não tá nem aí pra isso.

  11. Ronan escreveu,

    em setembro 9th, 2010 às 15:34

    Bom pessoal, concordo plenamente com os comentarios acima que fala sobre poluição em que encontra a lapinha.é um lugar q se naum tiver uma estrutura boua para turistas, realmente aquela beleza que todos nós encontramos la, um dia pode acabar por baderna e falta de respeito com as pessoas e moram la.só não gostei do comentario acima que relata que as pessoas de Pedro leopoldo só vão la pra usar drogas e zuarr e blah blah blah..isso ai meu caro, hoje em dia é minoria,
    eu sou de pedro leopoldo, vou sempre a lapinha e naum preciso de usar drogas e zuarr a ponto de prejudicar alguem ou alguma parte da lapinha.
    realmente alguns de pl vaum e vaum usar drogas msm.mais e quem é de BH ou qualquer região vai e usa la? acho q esse ai de cima precisa rever seu conceitos e naum julgar pessoas d tal lugar..
    vlw galera
    abraço.

  12. Alexandre Barba escreveu,

    em fevereiro 22nd, 2011 às 11:00

    Caro Marcos,
    Li seu texto e como sociólogo, quase-turismólogo (7 periodos cursados), amante da natureza e de corpo tatuado, tenho alguns comentários a fazer:
    - concordo plenamente com várias abordagens feitas em seu texto. O turismo como uma atividade economica segue a mesma lógica de exploração dos insumos disponíveis e transformação destes em lucros para aqueles que detém os meios para implanta-lo. Aliado a isso temos o descado dos orgãos fiscalizadores competentes que deveriam controlar e minimizar os efeitos dessa atividade.
    – Deve-se cuidar do meio ambiente fisico e humano.
    – A interação entre a população autoctone e os visitantes é outro ponto delicado. A relação entre culturas diferentes sempre gera uma modificação de ambas, ainda mais quando mediada por uma assimetria de poder, no caso de ordem economica. Isso também deve ser cuidadosamente pensado por orgãos (ir)responsáveis pelo turismo no local.
    Entretanto,a postura de indivíduos que buscam realizar os excessos fora de seu “local de origem”, como se o lugar do outro não fosse o lugar de ninguém, não pode ser generalizada para todos que tem o corpo tatuado e são “hippies”. Ser assim não torna um indivíduo um vândalo.
    Estamos juntos nessa luta por uma convivência harmonica humanidade e natureza, humanidade e humanidade. Você com seus óculos e camisa polo e eu com meu cabelo grande e tatuado.
    Grande abraço, paz e bem.

  13. Giovana Maciel escreveu,

    em março 17th, 2011 às 12:44

    Gostei muito do texto, e infelizmente é exatamenteo o que está ocorrendo lá, quando fui visitar o vilarejo fiquei horrorizada com jovens turistas que fumavam maconha na frente das pessoas, sem nenhum respeito e escrúpulo.
    Infelizmente, a falta de educação das pessoas em todos os aspéctos, gera danos, muitas vezes irreparáveis.

  14. ELIANE escreveu,

    em agosto 24th, 2011 às 13:13

    Não conheço a localidade, mas irei em breve. Quanto a situação de Milho Verde acredito que os turistas se comportam com uma “certa liberdade” em relação a atitudes pouco licitas devido a falta de policiamento e fiscalização. Realmente estive muitas vezes por lá e constatei que o consumo de drogas e comum principalmente a noite. Quanto a poluição não vi nada alarmante, pelo contrario as pessoas recolhem seu lixo e levam para casa. Acredito que tudo é questão de bom senso, desde que não prejudique o lugar e seu moradores, não devemos esquecer que existem muitas famílias que dependem do turismo para viver com dignidade.

  15. alan escreveu,

    em outubro 21st, 2011 às 21:13

    caro marcos,
    seu texto tem bons fundamentos, muitas verdades em relaçao ao turismo predatorio, porem, é lastimavel que um homem com sua formaçao, status e carreira, tenha tanto preconceito em relaçao aos jovens, hipies, tatuados e principalmente aos moradores da cidade em que leciona.
    sou frequentador da lapinha e ja conheci gente de vairas idades, cidades, etnias e filosofia de vida, incluindo hipies, hastafaris e etc.. inclusive de pedro leopoldo e muitos estao ali simplesmente para contemplar a beleza do local, se preocupando em manter e preservar a natureza.

  16. Jader Brighenti escreveu,

    em novembro 30th, 2011 às 15:26

    É mais um caso clássico da denúncia e não da solução. Há milhares de anos o homem depreda a natureza. isso não é novidade alguma. Sempre começou a depredação dela, com uma atividade economica. Primeira a da subsstencoa e depois para acumular lucros. Aí neste lugar, se segurar a exploração economica, vai-se poupar a natureza. sea economia for controlada pelas atividades de exploração, vai-se controlar também as idéias e gostos dos turistas. Mas quem deve salavar o local são os nativos, se eles estão gostando da nova economia, nõa se pode fazer nada. Quem sabe Lapinha da Serra, um dia se torne a capital mineira… Alguém duvida? só faltam os três poderes… ha ha ha salve-se quem puder assim é a vida…nõa conseguimos slavar nem amigo, vizinhos e parentes, imagine uma cachoeira e uma represa?

  17. Cláudia Coelho escreveu,

    em dezembro 4th, 2011 às 08:27

    Prezado Marcos,

    Quando conheci a Lapinha, em 1998, tive o prazer de vislumbrar uma comunidade ainda intacta, preservando seus valores e costumes, foi por ter encontrado tanta beleza, que resolvi largar tudo para morar junto destas pessoas, em 2002 consegui realizar este sonho em busca de qualidade de vida, hoje, após 10 anos morando em Lapinha, posso afirmar que observando as mudanças, infelizmente sou obrigada a afirmar que você está coberto de razão e as perspectivas futuras são tenebrosas, com a chegada do asfalto a Santana do Riacho e o total abandono do poder público com todo o município, temo os próximos anos e penso se não seria o caso de vender minha casa e procurar outro local para morar??? Pensando bem, não vai adiantar nada, pois pelo que vejo, em todos os lugares que morei, incluindo Pedro Leopoldo, terra de nascimento de minha mãe, e portanto local em que sempre me senti em casa, estão completamente abandonados pelos Prefeitos, Vereadores e Secretários responsáveis, estes que poderiam, se quisessem, mudar a situação atual destas localidades. Melhor continuar morando aqui em Lapinha e vendo a degradação ambiental e moral que se instala, cada dia mais, sem o menor respeito pelos moradores nativos.

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