Fazenda Virgolino em Santana do Riacho: existirá uma “Minas Profunda”?
A convite de Adriana Marques Martins e de sua mãe, passei o feriado de 21 de abril na Fazenda Virgolino, próxima à sede municipal de Santana de Riacho. Viagem curta, mas deslumbrante. Vagarosa por causa das estradas de terras e porque ninguém quer perder sequer um olhar sobre a paisagem, ao mesmo tempo diversa e rústica. A força telúrica de Minas está gravada nos contrafortes do Espinhaço, bem como as tramas de longa duração de nossa história mínero-agropastoril.
Cheguei à Fazenda já era noite, noite de lua cheia, domingo 20 de abril. A luz clara da lua revelava a altura do paredão de rocha que cerca, no lado leste, as terras da Fazenda. Aos pés desse paredão, podia-se divisar os contornos aplainados de pequeno vale fluvial, salpicado por pequenas manchas de roçados. Luzes de poucos vizinhos dispostas no sentido do córrego, no nível de base do terreno. Tudo coberto pelo vento. À noite, o vento é o personagem principal, que desaba sobre a terra com gritos fortes. O vento e o frio, companheiros inseparáveis. Vento que tomba para o mesmo lado a copa das árvores, inclusive os três ipês gêmeos que vigiam a sede da Fazenda. Sopro de monstro na direção leste-oeste. Interminável. Incontido.
Logo pela manhã, as paisagens da Fazenda e arredores ficaram mais nítidas. No sentido norte-sul, como se fora uma espinha, deita-se o paredão quase reto, salpicado de verde e cinza. De um lado do córrego, na base do paredão, estende-se o campo rupestre; do outro, na margem esquerda, domina o cerrado e existem manchas de matas nas lapas de pedra. Os pastos botaram abaixo as matas que cobriram, outrora, quase toda a região. Sobre o paredão, cuja face voltada para a Fazenda deve medir de quatrocentos a quinhentos metros de altura, corriam nuvens e névoas, chapéus de abas caprichosas que oscilam do leitoso ao plúmbeo. E o vento, que não pára de rosnar, arrancava o chapéu da serra continuamente. Depois trazia outro, como deferência especial. O sol assistia essa luta entre as nuvens e a serra enfraquecido, embora brilhante. Às sete horas da segunda-feira, dia 21 de abril, ainda fazia frio na Fazenda Virgolino.
Saímos para curta caminhada, paralela à serra e ao córrego. O vento continuava a se impor. Tão contínuo e cru é seu batido que até alterou a arquitetura do joão garrancho. Ao invés do casulo comprido solto no ar, o pássaro aqui constrói o ninho trançando os gravetos ao redor de galhos fortes, como uma esfera de espinhos. O joão garrancho tem ares de ouriço-caixeiro nas cercanias do Pico do Breu. Outra curiosidade: fora da época, cigarras cantavam escondidas na multidão das pedras e nas poucas árvores ao longo das barrancas do córrego. Devem ser particulares causados pelo vento, pela altura e pelo clima.
Oito horas e dez minutos. O sol não vencera ainda o nublado da serra. O vento continuava a soprar, enregelando ossos e narizes dos caminhantes, causando dores nos ouvidos. É preciso estar bem vestido para caminhar nas alturas do Espinhaço, de modo a observar confortavelmente suas bonitezas. Nesse momento, entramos na estrada entre as Fazendas Virgolino e Cachoeira. Dizem os antigos moradores da área que essa estrada já foi bem melhor, quando nela corria o ônibus que ligava Santana do Riacho a Congonhas do Norte. Todavia, anos atrás, o IBAMA provocou a desativação dessa estrada, que agora é simples servidão das fazendas e trilha para mochileiros que procuram cachoeiras na região. A estrada é surpreendente, porque alinha rebanhos de nuvens e cristas de serras, no meio de plantações de pedras pontudas. Ruínas de campos do Senhor, alumiadas por canelas de emas quando o fogo, de origem humana ou natural, sobe as grimpas do terreno. Não fosse o vento, haveria nessa estrada silêncio enlouquecedor. Sulcos profundos e galerias de pedra sob o azul imenso divertem as vistas. Tapetes de flores pequenas, manchadas de branco e lilás, estendidas no verde rústico, clamam por botânicos carinhosos. Eu me perguntava: cadê a água? Ela estava próxima, mas difícil. Além da areia branca e da pedra, no rasgo da pele da terra, a água corre em fios qual sangue retirado no talho de punhal. Entre a estrada e o paredão, o córrego escavou cânion apertado.
Nove horas. O sol se arrisca!
Nove e cinqüenta. O sol mostrou sua graça. O vento amainou, comportado. Virou zumbido de abelha, daquele tipo que gruda no cabelo, mas não feroa a gente. A serra, então, começou a seduzir as nuvens que se prendiam a seu corpo rochoso. Para logo irem embora, esgarçadas.
Lá pelas onze, de retorno para a sede da Fazenda, cruzamos o pequeno córrego. As margens mostram sinais de erosão. O leito acumula assoreamento, de maneira que nas curvas do pequeno ribeirão há praias de areia branca. Onde há rala mata ciliar, a sombra esfria a paisagem ribeirinha, a água convida ao banho, desde que não se tema girinos e piabas. Entre o rio e a base da serra, chama atenção um pequeno bosque de candeias. Dispostas num círculo e semeadas com regularidade, as candeias produzem boa sombra e seus galhos e raízes, com formas caprichosas, produzem assentos fartos. Descansamos ali por alguns minutos.
Depois voltamos para a sede da Fazenda. Devia ser meio-dia, ou até mais. Passamos pelo velho curral, feito de paus e telhas antigos, muito baixo, sobre base de pedra. Logo atrás dele, o quarto de queijo funciona. Os velhos utensílios foram trocados por apetrechos em plástico e inox. As paredes e os pisos ladrilhados. O queijo, porém, continua fabricado segundo processos ancestrais, para ser vendido aos visitantes e nos mercados de Santana de Riacho e Pedro Leopoldo. Dizem as proprietárias da Fazenda que há um comerciante belorizontino que vai ao município e compra a maior parte da produção local, revendendo-a, em seguida, na capital mineira. Experimentei o queijo. Seu gosto é muito bom.
Na parte de baixo do curral, ficam as capineiras e pequenos cercados com pés de café, bananeiras e mangueiras. Acima, o pomar. Sem maior regularidade, ocupam o pomar, cujo chão é trazido bem limpo, as mesmas coisas que os viajantes naturalistas do século XIX observaram. Laranjas, bananas, goiabas, mangas, abacates, cocos, pêssegos, figos, maracujás, uvas. A laranja serra d’água estava estupenda. Nessa parte da Fazenda, circulam galinhas cujos ninhos aproveitam velhos cestos, colocados em forquilhas de árvores, para os ovos ficarem a salvo de cobras e lagartos. Entre o pomar e o curral, um pequeno pátio cimentado serve como terreiro para secar café.
A sede da Fazenda Virgolino é um casarão moderno, situado no alto de uma colina, com vista esplêndida para o vale e o paredão de pedra. Possuí boas acomodações, simples, porém, confortáveis. Seus proprietários, Adriana à frente, querem transformar a Fazenda num destino de turismo ecológico, principalmente para o público escolar das grandes cidades. Aos poucos, sem alarde e precipitação, traçam planos e fazem pequenos investimentos para alcançar a reconversão pretendida. Fui lá para dar alguns palpites sobre atrativos históricos que poderão ser agregados ao projeto. Situada coisa de seis quilômetros da famosa Lapinha da Serra, a Fazenda Virgolino quer evitar os problemas que aquele destino turístico infelizmente já acumula.
A gente da Fazenda Virgolino está certa. Essa Minas interiorana, servida por estrada de terra, fora dos grandes vetores do desenvolvimento estadual, precisa se mexer. Com criatividade. Explorando apropriadamente seus “ativos”: a tradição secular, a vida aprazível e o patrimônio ambiental.
Por Marcos Lobato Martins, 22 de abril de 2008. Comentários
