Comentários sobre entrevista na Revista de História da Biblioteca Nacional

A Revista de História da Biblioteca Nacional publicou, na edição de fevereiro de 2008, entrevista com o professor Caio César Boschi, historiador mineiro bastante conhecido nas Alterosas, no Brasil e na “Boa Terra”. Nos últimos anos, Caio Boschi vem se destacando pelos projetos de inventários de fontes realizados em Portugal, dos quais resultaram importantes guias de documentos para a história brasileira.

Na referida entrevista, alguns pontos me chamaram a atenção. Começo pela pergunta sobre o ensino de História do Brasil nas universidades portuguesas. A resposta de Boschi enfatiza o fato de que a idéia de colonização é muito presente em Portugal. Como no fado, a grandeza de outrora ainda mobiliza a alma lusitana, a ponto de, nas graduações, até recentemente, a disciplina “História do Brasil” ter sido obrigatória. Certamente, História do Brasil que se reduzia aos tempos da América Portuguesa – imagino eu. De qualquer forma, é mais interesse do que representam meia dúzia de cursos de graduação no Brasil que incluem a disciplina chamada “Civilização Ibérica”. Pode-se perceber, portanto, a enorme distância que ainda persiste entre as academias dos dois lados do Atlântico. Distância que talvez comece a diminuir justamente pelo avanço da abordagem dos processos históricos na perspectiva de um império luso-brasileiro, cujas estruturas e dinâmicas envolviam pontos diversos do Atlântico e do Índico.

Revista de História da Biblioteca Nacional, edição número 29 referente a fevereiro de 2008.
Revista de História da Biblioteca Nacional, edição número 29 referente a fevereiro de 2008.

Porém, tanto a Revista de História quanto o entrevistador perderam a oportunidade de falar sobre o estado dos diálogos historiográficos entre Brasil e Portugal, algo suscitado ironicamente pelo próprio Boschi, ao contar que inicia seus cursos em Portugal dizendo aos alunos que eles terão o ponto de vista de um “colonizado”, e não do “colonizador”, sobre a História do Brasil.

Um segundo ponto da entrevista que me chamou a atenção foi a questão da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Perguntado sobre sua atuação na origem da CPLP, Boschi disse que teve apenas uma conversa, em 1993, com o embaixador José Aparecido de Oliveira, em Lisboa. Nesta conversa, teria ouvido do embaixador as linhas gerais da proposta e debatido com ele a criação de uma universidade da CPLP, a “Universidade dos Sete”. Digna de nota, pela objetividade da análise e, ao mesmo tempo, pela polidez da expressão, foi a resposta dada por Boschi sobre as razões do fracasso da CPLP. Para ele, isso ocorreu por conta da “má condução do processo de formação e de finalização institucional da CPLP (…). [A institucionalização se deu] fora dos padrões que o embaixador tinha pensado. E mais, o Brasil perdeu vergonhosamente uma liderança que adquirira ao capitanear a idéia. O governo Fernando Henrique (1995-2003) abdicou de todo o ela inicial de fazer dessa instituição um veículo para maior aproximação nossa com a África”.

Esse foi mesmo um dos pecados do governo Fernando Henrique, cuja explicação, sejamos francos, se encontra no desprezo que os tucanos nutriam e ainda nutrem pelo Sul, especialmente pelos países africanos e lusófonos. Isso fica visível nos artigos que luminares do tucanato publicam na imprensa atacando a política externa do governo Lula, as viagens do Presidente para a África e a formação do G20 nas negociações da Rodada Doha. O Sul, segundo os tucanos, seria atrasado, pobre e diminuto como mercado. Logo, não interessaria ao Brasil, cuja política externa deveria ser conduzida na base da realpolitik e do pragmatismo comercial. Ainda bem que essa visão reducionista do papel internacional do país parece estar ficando para trás.

Como se fosse cauda de um escorpião, a entrevista de Boschi guarda no final uma boa estocada. Perguntado sobre o que os historiadores mineiros acrescentaram de novo à historiografia brasileira, Boschi respondeu: “Costumo ouvir, e às vezes com uma carga de ironia, que os mineiros só produzem historiografia regional. Não tenho desdouro por isso e não creio que seja um pecado. Acho que Minas inova nessa dimensão: ao tratar de temas específicos, ousa nas formas interpretativas e em abordagens que extrapolam o seu universo físico, geográfico ou temático”. Tuchê!

Boschi tem razão. A qualidade do trabalho historiográfico nada tem a ver com a dimensão do recorte adotado, se regional ou nacional. Eu vou mais longe: grande parte daquilo que se convencionou chamar de “História do Brasil”, produzido no eixo Rio – São Paulo, não passa de história regional indevidamente alçada à condição de história nacional. A propósito, para o leitor interessado em aprofundar essa discussão, anexo pequeno texto que escrevi sobre história regional, que integra uma obra didática que busca publicação (ver texto:Os estudos regionais na historiografia brasileira).

Por Marcos Lobato Martins, 27 de março de 2008.  Comentários

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