Tailândia, Pará: a “guerra da madeira” coloca população local contra o IBAMA
Na terça-feira, dia 19 de fevereiro, as imagens da rebelião de cerca de mil pessoas contrárias à apreensão de madeira ilegal na cidade de Tailândia, situada a 218 km de Belém, ganharam o país nos telejornais. Considerada a cidade dos madeireiros da Amazônia, Tailândia foi sacudida por enfrentamentos entre pessoas ligadas a serrarias e carvoarias e agentes do poder público (fiscais do Ibama, da Secretaria do Meio Ambiente do Pará e soldados da Polícia Militar). O Fórum de Tailândia foi invadido e depredado, uma ponte foi interditada com toras incendiadas pelos manifestantes e um grupo de fiscais impedido de deixar uma serraria onde apreendera madeira avaliada em R$ 4 milhões. Os conflitos provocaram o deslocamento de 200 policiais da tropa de elite de Belém, estacionados na cidade para dissuadir novos levantes, enquanto os governos federal e estadual prometem seguir atuando na região.
O levante de Tailândia dá mostras dos imensos problemas que a longa exploração da floresta, ilegal e predatória, gerou no Pará e em outros estados da Amazônia. O município, de 67 mil habitantes, possui 70% de sua renda atrelados às cadeias da produção de madeira e carvão a partir da derrubada da mata nativa. Para os moradores e as autoridades municipais, caso tais atividades, que dominam a economia da cidade há 40 anos, sejam paralisadas, Tailândia irá “quebrar” e o desemprego campeará. Na visão dos locais, os madeireiros não são os principais culpados pela devastação de 60% da cobertura vegetal original do município, porque eles e seus empregados apenas tentavam ganhar seu sustento. O importante é que teria faltado orientação do Estado e fiscalização dos órgãos ambientais. Apreensivos, os habitantes de Tailândia reúnem-se para comentar a situação, sob clima de evidente tensão. Muitos dizem que, se as firmas madeireiras fecharem, estarão perdidos, porque não têm para onde correr.
A defesa das 160 madeireiras, a maioria ilegais, pela população e autoridades locais é o resultado óbvio do “modelo de desenvolvimento” da Amazônia adotado desde os tempos da ditadura militar. Na região, sempre se fez vistas grossas para o desmatamento, porque nunca se cuidou de defender o valor ambiental e econômico da floresta em pé. Essa mentalidade de que a “civilização” da Amazônia requer a derrubada da mata combinou-se perfeitamente com a prolongada omissão das autoridades federais e estaduais. Agora, coibir os crimes ambientais praticados por fazendeiros, mineradores, carvoeiros e madeireiros será tarefa difícil, pontuada de enfrentamentos com parcelas expressivas das populações locais.
Não bastará, portanto, a disposição firme de intervenção do poder público e a presença de soldados. O Estado tem que responder com maior agilidade os processos de concessão de licença ambiental, para não empurrar os empresários para a ilegalidade. O Estado tem que investir na pesquisa, para desenvolver e repassar técnicas e processos que viabilizem a exploração sustentada da floresta. O Estado tem que cuidar da requalificação profissional das pessoas que a derrubada ilegal da mata emprega. Enfim, regular, fiscalizar e oferecer alternativas econômicas sustentáveis para os habitantes das cidades amazônicas são os desafios urgentes do Estado.
Os episódios de Tailândia me fizeram recordar os eventos de 1989, ocorridos no Alto Jequitinhonha, ao redor da cidade de Diamantina, quando o governo mineiro interditou, por alguns meses, o garimpo de diamante e ouro (ver texto sobre mineração, identidade garimpeira e meio ambiente). A área esteve a ponto de explodir, com levas de milhares de garimpeiros rangendo os dentes para centenas de policiais fortemente armados. Em Diamantina, houve protestos, passeatas pró e contra o garimpo, fechamento do comércio e suspensão de aulas, debates políticos inflamados. O trauma foi enorme, mas a cidade conseguiu encontrar algumas saídas para a crise que se abateu sobre a atividade garimpeira.
Minha dissertação de mestrado, defendida no Departamento de Sociologia da UFMG, em 1997, analisou as reações dos garimpeiros diante do novo cenário da mineração construído pela ação dos órgãos ambientais brasileiros e pelo avanço dos movimentos ambientalistas no país. Uma coisa ficou clara: problemas desta natureza, que implicam reorientar atividades regionais tradicionais, somente serão resolvidos com êxito se soubermos encarar os complexos enfrentamentos simbólicos que formam seu substrato. É preciso compreender que, além de interesses econômicos imediatos, existem poderosos universos simbólicos detrás da ação rotineira dos agentes envolvidos na exploração da natureza, mentalidades arraigadas que alimentam identidades sociais resistentes à mudança.
Assim como os garimpeiros de Diamantina acreditam que são heróis civilizadores do Nordeste de Minas Gerais, que realizaram notável trabalho lutando contra a natureza agreste e o Estado voraz, aposto que os madeireiros do Pará imaginam-se também heróis civilizadores da Amazônia.
Por Marcos Lobato Martins, 23 de fevereiro de 2008. 10 Comentários

em agosto 22nd, 2008 às 13:03
Adorei a matéria, achei muito rica de detales e que não nos deixa nenhuma dúvida quanto ao assunto tratado.
Meus sinceros parabéns!
em outubro 8th, 2008 às 10:04
MORO EM TAILÂNDIA E ADOREI SABER UM POUCO MAIS DESTA CIDADE, SO LAMENTO A “DESTRUIÇÃO” QUE VEM OCORRENDO COM A DEVASTAÇÃO DA NOSSA AMAZÔNIA, NO QUAL A MINHA CIDADE DO CORAÇÃO TEM UMA GRANDE COLABORAÇÃO COM ESTA ATROCIDADE.
PARABENS PELA MATÉRIA.
em maio 31st, 2009 às 20:11
SINTO MUIOTO DIZER QUE ME ENVERGONHO DESTA CIDADE…
em julho 27th, 2009 às 19:35
eu moro em tailandia e adoro essa cidade,mas a destruiçao ta demais..
em outubro 13th, 2009 às 08:33
Não adiantou de nada essa operação sem planejamento e consequentemente sem sucesso, pois por aqui e em outros cantos da AMAZÔNIA,
a devastação ambiental continua. Tem que haver um estudo de impacto socioeconômico sobre o que essas operações trazem para a população, e criar meios de investimentos e grandes projetos para gerar emprego e renda aos cidadãos que aqui habitam e vivem sem ajuda e largados à própria sorte. Somos reprimidos em nome da preservação ambiental, para darem satisfação aos gringos e a comunidade internacional, e dizerem que o dinheiro que mandam está sendo aplicado na proteção da amazônia. Mas, e o povo que aqui reside? Que se exploda! simplismente somos considerados delinquentes.Mas a fome dói e pertuba os lares tailandenses… Vamos desenvolver a região com o dinheiro que vem lá de fora! Vamos combater essa cultura devastadora usando investimento e alternativas de sobrevivênvia para nossa gente!Nossos Governantes são muito despreparados. Essa é a grande verdade…
em janeiro 18th, 2010 às 18:50
queria saber se foi a ana julia q fez isso pois pra ela fazer isso ela teria q mandar industias para tailândia pois o povo daqui não tem outro meio de vida a não ser serrarias ela estava certa em preserva o meio ambiente mais não em matar as pessoas de fome ou se ela mandou verba para as pessoas o prefeito robou pois o povo não recebeu nada.
em junho 8th, 2010 às 11:23
isso é uma grande vergonha a todos a maioria de todos os empresarios olham para tailândia so para ver os beneficios que ela oferece com a madeira já pelo o lado da segurança e da pobreça nenhuma pessoa que olha por esse lado agora caralho vcs so querem e que essa porra dessa madeira fique la é as pessoas vão morrer de fome
não tem nenhuma solução para esse caso
em agosto 2nd, 2010 às 20:58
Eu morava em tailândia,eu gostaria que os politicos ou pessoas que pode mudar o desenvolvimento da cidade ela merece tudo de melhor,eu morei 16 anos em tailândia ela tem a mesma idade minha nasci em 1988 e no mesmo mes de maio eu amo tailândia e desejo tudo de bom para essa cidade modelo,ela tem tudo para crescer tem pessoas que gosta e tem coragem para trabalhar.
ex.violencia muda com a educação de qualidade,fome com trabalho digno do suor,etc…
que Deus abençoe tailândia e você tambem.
em setembro 28th, 2010 às 22:14
Moro em Tailandia desde 1989; e não ve envergonho da minha cidade; exceto dos politicos que estao à 12 anos no poder; entraram quebrados estao milionarios e nossa cidade pobre.
O povo passando necessidade e eles noticiando que esta tubo maravilha; até acham que sao Deus.
em novembro 12th, 2010 às 17:26
Eu moro em Tailandia desde 1999, em 2001 meu Pai faleceu devido a um acidente ocorrido em uma Serraria….
apesar de tudo amo esse lugar a cidade tem tudo para crescer mais nossos governantes só pensam em ficar ricos, roubando as verbas qe vem para o município, sendo assim o unico jeito de se ganhar dinheiro é a madeira .. mais com isso nossa cidade sofre varias mundaças não só no clima mais tbém na economia… quero muito poder ajudar meu município pois este lugar mereçe novos meios de desenvolvimento…