Pontes para vencer o destino

Eu nasci e cresci na beira da estrada de ferro, na pequena cidade mineira de Pedro Leopoldo, hoje integrante da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Filho de engenheiro da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, passei a infância entre ferroviários, brincando no pátio da estação ou percorrendo o sertão. De General Carneiro, distrito de Sabará, até Corinto, no norte de Minas Gerais, conheci todas as estações, as pontes, os túneis, as paisagens, as casas de turmas usadas pelos operários da Central, as comidas deliciosas, as frutas diversas, as estórias de vaqueiros e jagunços, a terra de Guimarães Rosa. De todas as imagens de minha infância, as mais marcantes foram as de pontes.

Ponte do Acaba-Mundo, sobre o Rio Jequitinhonha.
Ponte do Acaba-Mundo, sobre o Rio Jequitinhonha, entre Curralinho e Capivari.

Aos dez, onze anos, eu passava muito tempo sentado na escadaria do alpendre de minha casa. Olhava o pátio da estação, contava os trens, identificava os guardas-chaves de serviço. Então, mergulhava os olhos longamente nas páginas ilustradas de enciclopédias e revistas de engenharia. Examinava cada detalhe dos diagramas, das fotografias e dos esquemas técnicos. Invariavelmente, acabava hipnotizado pelas pontes.

As pontes me faziam otimista. Além de belas, elas davam provas de que podíamos unir o que Deus fizera separado. Lugares divididos por rios profundos, com correntezas perigosas, graças às pontes viviam como irmãos gêmeos. Cidades obrigadas por séculos a fazerem voltas enormes, por causa de lagoas e baías, puderam se abraçar finalmente porque construíram pontes. Nem mesmo desfiladeiros altíssimos, cavados na rocha dura pelo trabalho milenar da água encachoeirada, impediam o percurso dos trens e dos carros, desde que sobre eles houvesse pontes. Ao unirem o que o relevo separou, as pontes me indicavam que as cidades, os países e os lugares aspiravam comunhão, ainda que isso fosse improvável.

O fascínio pelas pontes me levou a procurá-las. Queria atravessar cada uma que encontrasse. Caminhar sobre elas sem pressa, observando cada detalhe. Classificá-las, medi-las, percorrê-las a partir de cada ponta. Se possível, olhá-las de baixo, do nível da água, contra as nuvens do céu. Sonhava em nadar sob elas, sol quente a pino. E desejava no lusco-fusco da tardinha enxergá-las de longe, lá da curva da estrada, entre os vãos das árvores e dos barrancos, como quem, muito tímido, não tem coragem de apresentar-se diante da menina mais bonita da rua. Aos poucos, comecei a forçar meu destino: seria construtor de pontes.

De certo modo, dediquei minha vida a caçar pontes. No início, bastava dar alguns passos para além de casa, na direção do centro da cidade, e eu podia atravessar pontes de concreto armado. Pontes pequenas, de pouca altura, que transmitiam sensação de segurança. Mas, na direção sul, ao longo da linha de trem, existia antigo pontilhão feito de ferro fundido estendido sobre o Ribeirão das Neves. Atravessá-lo causava vertigens. Não havia amuradas e nem chão: entre os dormentes, via-se o ribeirão lá embaixo. Tábuas finas mal pregadas no meio dos dormentes quase nada facilitavam o esforço do pedestre. Depois encontrei muitas outras pontes no sertão mineiro. Entre Sete Lagoas e Curvelo, a estrada de ferro oferecia duas ou três pontes grandes, mais altas que a torre da igreja matriz. Percorrê-las no carrinho de linha dava frio na barriga; atravessá-las a pé era um desafio e tanto, que poucas vezes meu pai permitiu realizar. Os operários que as levantaram no começo do século passado possuíam artes de trapezistas. Eles caminharam no ar, com um pé no sul e outro no norte, portando ferramentas pesadas. No meio dessas pontes de ferro inglesas, completamente envolvido pelo vento, eu podia sentir o passado e o presente, misturar campo e cidade. Fechar os olhos e tremer de medo. Ou fitar o sertão numa panorâmica que só os gaviões, quando ascendem no meio de correntes quentes de ar, alcançam.

Nem a visão da ponte Rio-Niterói foi capaz de impedir minha veneração pelas pontes de ferro mineiras. Ao lado delas, num degrau abaixo, eu colocava as velhas pontes de madeira, como a que existia na estrada para Biribiri, quase toda consumida pelo fogo, a que embelezava a estrada para Conceição do Mato Dentro e a que vencia o Jequitinhonha ligando Mendanha a Inhaí. Entre Rodeador e Monjolos, no desativado ramal Diamantina-Corinto, a ponte sobre o Pardo exibe arcos do tipo do viaduto da Floresta. Arcos escuros, salpicados pela ferrugem, combinando com as águas marrons do rio. Banhei-me sob ela e pedi-lhe bênçãos. Demorei-me o mais que pude no Pardo, mergulhando e voltando à superfície várias vezes. Então percebi que, não obstante toda a melancolia daquela ponte de ferro esquecida no vazio do sertão, seu formato é lindíssimo, não menos do que a vida. Quilômetros adiante, Santo Hipólito ainda guarda outra gigante inglesa – três arcos enormes – ligando as margens do Rio das Velhas. Juro que ela surge nos meus sonhos como fantasma, sussurrando no tom metálico e contido do ferro: “anseio o retorno das composições ferroviárias”.

O que mais me entristece é que a maioria de nós, entretanto, é tonta demais para compreender essas pontes. Paradas no meio delas, quantas pessoas podem apreender o espírito de seus antigos construtores? As pontes são sinais do nascimento de um mundo novo e da morte do antigo. Isso eu aprendi ao contemplar a ponte do Acaba-Mundo, na junção do Jequitinhonha Branco com o Jequitinhonha Preto. Ponte de concreto, com arco magnífico, unindo as alças de uma trilha de tropas no sopé da Serra do Gavião. Seus construtores, na década de 1920, imaginaram que ela tornaria mais rápida e segura a viagem dos animais cargueiros que iam da Mata do Serro para abastecer Diamantina. A ponte do Acaba-Mundo nasceu moderna para servir o antigo sistema colonial de circulação; depois viria, é claro, uma rodovia pavimentada. A rodovia não veio e a ponte está lá, advertindo sobre as artimanhas da história: a um só momento é projeto e ruína. A ponte do Acaba-Mundo é a ponte mais triste do mundo. Por isso é a mais bela de todas.

Todas as pontes que eu admiro têm duas coisas em comum. Foram difíceis de construir. E não afligem a face da terra. Feias, insolentes, espinhos que sangram a paisagem são as “pontes-cadáveres”, que morrem durante toda a vida, até chegar o dia de seu desabamento. Pontes-cadáveres são pontes lançadas não sobre torrentes ou precipícios, de modo a ligar duas margens para as necessidades dos homens; são pontes construídas no meio de uma planície, cuja única função é servir de recreio às grandes damas ou esbulhar o erário público. Os príncipes, governadores e empresários costumam servir-se delas como balcões ou varandas. As pontes-cadáveres desrespeitam a essência das pontes: carecem de utilidade real, não existem para ludibriar os tabus impostos pela geografia física. Ficaram recentemente famosas as pontes-cadáveres da Construtora Gautama no sertão do Maranhão e do Piauí. Entre nós, interior mineiro afora, há alcaides que têm prazer em encher as cidades com essas pontes inúteis.

Texto publicado no jornal Folha de Pedro Leopoldo em novembro de 2007.

Por Marcos Lobato Martins, 18 de fevereiro de 2008.  Comentários

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