O fim da calva dos morros
Antiga marchinha de carnaval afirma que as mulheres preferem os carecas. Pode até ser verdade, mas os adolescentes e os rapazes têm pavor da queda de cabelos. Por preconceito ou esquisitice, as crianças fazem piadas com os homens calvos. Os rapazes, por sua vez, gastam dinheiro nas farmácias ou com ervatários para se livrarem do menor indício de que raleiam suas cabeleiras. Na flor da idade, não há quem aceite ficar careca!
Curiosamente, com as cidades acontece o contrário. Quando ocupados e no processo de seu crescimento, os municípios impulsionam processos ferozes de degradação ambiental. Desmatam, sujam os rios e os ares, reduzem a biodiversidade, extraem freneticamente recursos naturais. As terras, originalmente cobertas de matas e bichos, são impiedosamente escalpeladas. Apenas quando as cidades atingem certa maturidade social, econômica e cultural, começam a desempenhar papel importante preocupações e iniciativas conservacionistas. O caso de Pedro Leopoldo, município da região metropolitana de Belo Horizonte, é bem ilustrativo desta trajetória. O município foi bem carequinha quando jovem, mas, à medida que envelhece, está ficando mais cabeludo. Como sinal de juízo, assistimos gradualmente o fim da calva dos morros.
É claro que, quando aqui só havia a fazenda das Três Moças, do Casado, Quilombo, Urubu e Busca Vida, as florestas cobriam quase tudo. Matas fechadas, como se fossem vastas cabeleiras, estendiam-se das margens dos ribeirões e córregos até o topo dos morros. Exibiam árvores altas, de madeira de lei, que teriam escondido comunidades de negros fugidos, a exemplo do Pimentel. Nelas, entre paus d’arco, vinháticos, cedros, aroeiras e jacarandás, naturalmente onças, veados, pacas, cobras e passarinhos se matavam cotidianamente. Apenas umas poucas clareiras abrigavam as roças de milho, cana e algodão das antigas fazendas. No entanto, a partir da década de 1890, cada vez mais homens chegaram para abrir roças e pastos, trabalhar na Fábrica de Tecidos Cachoeira Grande e na Estrada de Ferro Central do Brasil e tocar comércio na cidade, que dava seus primeiros passos. Passos acanhados, mas vigorosos.
As matas, então, tiveram que recuar. Primeiro, elas foram derrubadas nas áreas das vargens, cuja fertilidade atraiu bandos de fazendeiros. Sobrou apenas a mata ciliar protegendo os cursos d’água. No lugar da mata, cresceram roças de milho e capim para alimentar o gado. Depois as fazendas incorporaram as encostas mais suaves e os topos dos morros. Outra vez, as matas foram postas abaixo pela ação conjugada do fogo e do machado. Por isso, quem tiver o trabalho de examinar as fotos guardadas no Arquivo Municipal Geraldo Leão, mandadas bater pelo Prefeito Dr. Cristiano, para registrar o calçamento das ruas principais da cidade no longínquo ano de 1939, ficará surpreso com a calvície dos morros naquela época. A mesma impressão resultará do conjunto de fotos aéreas, datado de 1960, mostrando os distritos e a sede municipal. O que se vê é o predomínio de terras limpas, descobertas, transformadas em pastos e áreas de plantação.
No meio do século passado, o processo de desmatamento na região acelerou-se por diversas razões. A primeira delas foi a necessidade crescente de retirada de madeira de lei para a construção civil. Outra foi a ampliação do corte de lenha para alimentar fogões domésticos, fornos de calcário, locomotivas e caldeiras. Tudo isso era feito com os paus da mata nativa, trazidos para a cidade em carroções, vendidos de porta em porta. Dessa forma, volume impressionante de madeira queimou e virou cinza entre os anos 1920 e 1960. Ao redor dos núcleos urbanos de Pedro Leopoldo, as matas praticamente desapareceram. Apenas em lugares mais distantes e de acesso difícil, sobraram manchas florestais. Para completar o serviço, visando atender a demanda crescente de leite na Capital, que adquiria ares de metrópole, as fazendas formaram pastos enormes. Para que o leite saísse daqui, no lombo de velhos caminhões Ford, mais árvores foram postas no chão. Pode ser que os bois tenham ficado mais numerosos do que as árvores (ver texto sobre história ambiental de Pedro Leopoldo).
Abro um parêntesis. Recordações – por assim dizer, arqueológicas – me levaram a crer que as árvores são seres de relação. Na infância, ouvi histórias de trabalhadores da estrada de ferro debaixo de mangueiras; na fazenda de meu tio, conheci a voz dos vaqueiros sob alto abacateiro, enquanto eles picavam fumo e enrolavam cigarros de palha. E no sertão, à beira da linha de trem, vi pequenos cemitérios abrigados nos pés de árvores frondosas. De modo que, para mim, as árvores parecem pontes entre universos distintos, entre a terra e o céu, entre vivos e mortos. Como, então, podemos desmatar tão desaforadamente?
Entretanto, a história dá voltas. Felizmente, para a terra e as árvores, o quadro de calvície dos morros de Pedro Leopoldo começou a mudar recentemente. Quem hoje tirar fotografias das paisagens do município verá mais cabelo na corcunda dos morros. Há bem mais verde nas regiões de Dr. Lund, Vera Cruz, Matos e Urubu. Até os morros que circundam a cidade têm matas secundárias em processo de crescimento. Um tônico capilar poderoso foi aplicado com relativo sucesso sobre a pele de nossa terra. Alguns elementos desse tônico são facilmente identificáveis. Uma das substâncias que compõem o remédio é a crise das fazendas tradicionais, que se arrasta desde os anos 1970. Desanimados e sem dinheiro, os fazendeiros abandonam aos poucos as suas propriedades. As terras, uma vez em repouso, iniciaram sua recuperação – voltaram a se encher de matas. Outra substância presente no tônico é o petróleo. Os derivados do petróleo substituíram, com vantagens econômicas, a lenha empregada como combustível. O cimento e o ferro, base das modernas técnicas construtivas, também entram no remédio, na medida em que pouparam muita madeira na construção civil. E tem ainda a consciência ambiental, só que o valor e a penetração desse elemento não podem ser superestimados quando se trata do imaginário dos pedroleopoldenses. A consciência ambiental dos moradores é frágil, pouco elaborada, superficial. Mas é auspicioso saber que ela está em desenvolvimento.
O que conta é o verde nos morros, a recuperação das áreas florestadas no município. Águas rebrotam, bichos reaparecem, cheiros, frutos e cores ficam mais diversificados. Surgem pessoas capazes de perceber que isso é bom para todos, inclusive para a economia local. Encantada, essa gente deseja cuidar melhor da cabeleira nova dos morros e das várzeas. Porém, não pode se deixar cegar novamente. O encanto de agora não deverá esconder as ameaças que pairam no horizonte, prontas para raspar mais rente os pêlos da terra. Convém ficar de olho na onda de expansão urbana no chamado vetor norte-metropolitano, causada pelas grandes obras do atual governo mineiro. É preciso deter a proliferação dos condomínios, bem como pôr freio ao apetite revigorado dos mineradores de areia e pedras ornamentais.
Afinal, como sabem os rapazes, manter cabeleira de artilheiro argentino, limpa e bonita, dá trabalho. Mas que é bonito, ah, isso é.
Por Marcos Lobato Martins, 20 de fevereiro de 2008. Comentários
