O Embaixador Ricupero e a Abertura dos Portos
A efeméride que dominará o ano será, sem dúvida, a comemoração dos 200 anos da transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro. Os processos associados à chegada do Príncipe Regente D. João VI, tanto na Europa quanto no Atlântico Sul, já começaram a receber grande atenção da imprensa e do mercado editorial. No dia 25, em Salvador, a Marinha realizou um desfile naval liderado pelo veleiro-escola “Cisne Branco”. Dias depois, desfile semelhante ocorreu na Baía de Guanabara, diante das praias mais badaladas do Rio de Janeiro. No dia 29, no Paço Imperial, área do “centro velho” da cidade maravilhosa, carruagens com atores simularam passeio da família real e do rei momo e suas princesas, abrindo oficialmente o Carnaval carioca. No curto trajeto do referido passeio, alguns populares gritaram: “Esta roubalheira começou com vocês”.
Isso dá bem uma mostra do que acontecerá durante as comemorações. O trabalho é sempre o mesmo: separar, dentre as dezenas de iniciativas oficiais, lançamentos de livros e realização de debates, o joio do trigo. Evitar e/ou criticar a espetacularização da história, sua transformação em mais um atrativo para enlevar turistas ávidos por diversão e excentricidade. Resistir aos que tentarão simplificar os eventos e processos relacionados à efeméride, sob a alegação de que assim eles ficarão mais compreensíveis para o povo, para os não-especialistas. Por outro lado, temos também que saudar as boas publicações sobre o assunto que já estão a caminho, os encontros sérios – que não precisam ser chatos e herméticos – que reunirão pesquisadores brasileiros e estrangeiros para discutir os múltiplos significados do período joanino. O melhor é aproveitar a efeméride para fazer avançar a historiografia e, simultaneamente, divulgar, ainda que parcialmente, a pesquisa de ponta sobre o ocaso do período colonial.
Há uma outra coisa que podemos fazer, mesmo que os espíritos mais puristas ou dogmáticos apresentem protestos. Refiro-me a transformar a comemoração em oportunidade para discutir o presente e o futuro do Brasil. Foi essa disposição que considerei o mais importante elemento da entrevista que o Embaixador Rubens Ricupero concedeu à Folha de São Paulo, no dia 28 de janeiro de 2008, exatamente duzentos anos depois que o Príncipe Regente assinou a Abertura dos Portos às Nações Amigas, na cidade de Salvador. O interessante na entrevista são as sugestões que o embaixador procura tirar dos episódios de 1808 para dirigir a ação no presente. Claro que há o risco constante do anacronismo, encerrado em frases de efeito do tipo: a Abertura dos Portos foi “a primeira medida provisória do país”. Ou a imprecisão evidente de afirmativas como: “a abertura foi um passo da globalização brasileira”.
Tomemos as devidas cautelas, é claro, mas devemos aceitar o desafio proposto pelo embaixador, quando, por exemplo, ele procura discutir as negociações comerciais, as margens de manobra que os negociadores do passado possuíam diante da Inglaterra e os de hoje possuem diante dos Estados Unidos e da União Européia. O Embaixador Ricupero enfatiza a importância de saber quais são essas margens, e como utilizá-las em proveito do Brasil. Devemos pensar noutra coisa que está esboçada na entrevista do embaixador.
Trata-se do realce que ele confere ao fato de que o país, para modernizar seu processo de inserção, precisou e continua precisando de um “projeto nacional”, senão ficará à deriva. No caso de 1808, os homens de negócio da Bahia, que redigiram uma representação do comércio e da agricultura de Salvador a Dom João, pedindo a abertura dos portos, queriam mesmo era exportar sem peias, mantendo intacta a estrutura da produção. Havia um projeto de modernização conservadora na elite de proprietários e comerciantes instalados na colônia. Esse projeto – que combinava doses diversas de liberalismo econômico e conservadorismo político – forneceu o norte para a Abertura dos Portos e, posteriormente, para a construção do Estado Nacional. A questão é: hoje, quando o país enfrenta as negociações da Rodada de Doha e da Alca, existe um projeto nacional construído por nossas elites?
Por Marcos Lobato Martins, 8 de fevereiro de 2008. Comentários
