Minas Gerais é um ovo. Mas tem praia.
Fazia mais de dez anos que eu não lecionava para estudantes do ensino médio. Este ano, porém, não tive como recusar convite da Escola Técnica de Formação Gerencial Theotônio Baptista de Freitas, mantida pelo SEBRAE-MG e pela Fundação Cultural Pedro Leopoldo, que é a mantenedora das Faculdades em que trabalho. Aceitei uma disciplina de terceiro ano, chamada “Mundo Contemporâneo”, que já me colocou em contato com 31 estudantes com idades entre 15 e 17 anos. Rapazes e moças de classe média, provenientes de famílias que residem em cidades da área norte-metropolitana de Belo Horizonte.
Uma turma agitada, que não perde a chance de conversar o tempo inteiro e de fazer piada com tudo. São jovens cheios de energia, inteligentes, às vezes demasiadamente dispersos. Mas têm mostrado boa capacidade de ouvir, além de alguma curiosidade pelo que eu tenho a dizer-lhes. Aliás, a disciplina “Mundo Contemporâneo” é justamente isso, um convite à boa conversação, que será estabelecida em torno de temas da cena hodierna que, penso eu, afetam muito diretamente os jovens. Na primeira aula, assim que terminei a apresentação das diretrizes que nortearão o trabalho, propus aos estudantes uma tarefa simples. Pedi-lhes para desenhar mapas mentais de seus espaços de vivência cotidiana. Numa única folha de papel, cada estudante deveria representar graficamente seu “espaço vivido”, os contornos de sua experiência diária. Eu recolheria os mapas na aula da semana seguinte, de maneira que haveria tempo suficiente para que eles escolhessem bem o que representariam nos seus desenhos, priorizando as referências espaciais mais significativas para suas vidas. Na data combinada, recebi 22 mapas. Um terço da turma deixou de cumprir a tarefa. Mais mulheres do que homens entregaram seus desenhos.
Os chamados mapas mentais ganharam evidência na década de 1970, época na qual, sob influência da fenomenologia, geógrafos discutiram intensamente as representações que os homens fazem do mundo. Tomaram estas representações e os conteúdos do imaginário dos grupos sociais como objetos de estudo, tornando central na reflexão da Geografia Humanista a questão da percepção do espaço. O espaço vivido e interpretado pelos indivíduos, construído socialmente a partir da percepção das pessoas, trouxe à cena o conceito de lugar. Lugar que é interpretado como conjunto de significados, como paisagem cultural. Lugar que passa a ser visto como uma construção mental, inscrita na consciência coletiva. Por isso, os mapas mentais são, para essa Geografia, instrumentos privilegiados para acessar os valores simbólicos e as relações (inclusive afetivas) entre os lugares freqüentados pelos grupos sociais e indivíduos.
Através dos mapas feitos pelos estudantes, eu pretendia me aproximar dos seus lugares, espiar os seus espaços de vida para enxergá-los melhor e, por conseguinte, conduzir com mais propriedade a disciplina. Logo que pude, examinei os desenhos recolhidos. A primeira observação que considero importante registrar: a discrepância entre os números de mapas de homens e mulheres. Apenas seis garotos cumpriram a tarefa. Desses, dois empregaram cores nos seus desenhos. As mulheres entregaram 16 mapas, dos quais oito eram coloridos. Por que as moças levaram mais a sério a atividade proposta?
Talvez elas possuam mais facilidade para expressar publicamente seus afetos e sejam mais acostumadas a falar de suas vidas. Talvez elas tenham menor interesse que os rapazes em “medir forças” com os professores. De qualquer forma, os mapas que recolhi têm, por isso mesmo, um viés feminino.
O conteúdo dos mapas revela coisas inquietantes. As duas tabelas seguintes sumarizam os dados constantes nos desenhos recolhidos. A Tabela 1 traz os referentes urbanos citados pelos estudantes.
Os espaços de vivência cotidiana desses estudantes parecem cabeças de alfinete: pequenos e de aparências muito assemelhadas. Eles praticamente se resumem ao par casa-escola. Apenas 5 (23%) mapas fizeram referência a outras cidades ou partes de Minas e do Brasil. Foram nomeadas explicitamente as cidades de Pedro Leopoldo, Matozinhos e Belo Horizonte. Os desenhos do estudante Cláudio e da estudante Jéssica sintetizam o que mais se vê nos mapas dos seus colegas: o jovem sai de casa para a escola, volta para casa, dá uma esticada até à academia de ginástica ou ao cursinho de inglês, e freqüenta a igreja uma ou duas vezes na semana. Vive enclausurado nos círculos restritos da família nuclear e da galera dos amigos. Os mapas de 7 meninas e de 4 meninos contêm somente a casa da família e a escola.
Na verdade, os espaços de vivência cotidiana dos meus estudantes adolescentes situam-se entre os “extremos” representados pelos mapas de Thatiane e Natália. O mapa da primeira abarca claramente o espaço metropolitano, enquanto o de Natália é incrivelmente intimista, fechado no seu quarto e na escola.
Além de pequenos, os espaços de vivência cotidiana representados nos mapas são, digamos dessa forma, “desmaterializados”. Não há praças. Não há ruas. Não há parques. Não há equipamentos urbanos de qualquer tipo na grande maioria dos desenhos. Não são representados bairros, áreas centrais, zonas rurais ou regiões industriais. A impressão que se tem é a de que os estudantes deslocam-se magicamente de ponto a ponto, sem valorizar o que existe entre as coordenadas que freqüentam. Suas cidades tornaram-se abstrações, vazios de gente e de movimento, grafos dotados de poucos pontos relevantes. Uma única referência ao transporte coletivo foi encontrada nos mapas, de tom negativo – o lotação é chamado de “lata de sardinha”. Nem sequer uma bicicleta apareceu nos mapas. Mas elas existem aos milhares na região. Meus estudantes do FG-PL não usam bicicletas? As “magrelas” não lhes oferecem lazer?
Por outro lado, árvores e animais surgem em três desenhos (14%), como simples elementos decorativos de casas e prédios. O que significa dizer que, para esses adolescentes, a “natureza” não integra o universo imediato de suas vivências e preocupações. Algo surpreendente, porque eles vivem numa região de grande beleza e diversidade natural e crônicos problemas ambientais, numa época marcada pela visibilidade midiática das temáticas ambientalistas.
A Tabela 2 condensa os dados relativos aos objetos que estão em evidência no cotidiano dos estudantes.
As cifras da Tabela 2 sugerem que não devemos exagerar o papel das parafernálias eletrônicas na rotina desses adolescentes. MSN, Orkut e lan-houses são citados explicitamente em dois desenhos apenas. Talvez os meios de comunicação disponíveis para esses jovens, sem dúvida mais eficazes e diversificados, contribuam menos do que se imagina para alargar seus círculos de relacionamento e sua compreensão dos processos sociais. Curiosamente, numa escola de negócios, o dinheiro praticamente não é mencionado como objeto significativo no cotidiano hodierno. Também surpreende o fato de que nenhum mapa menciona lugares de trabalho dos familiares. Então, cabe perguntar: para esses adolescentes, a economia ainda é uma abstração? Profissão e emprego podem não fazer parte das preocupações mais imediatas, mas muitos deles se percebem como consumidores.
Os mapas oferecem algumas indicações sobre o universo das relações sociais desses estudantes. O ano é dividido entre estudos e férias. Férias na praia. A semana reserva tempo para encontros com amigos (7 citações), namoros (5 citações) e festas (3 citações). Encontrei nos mapas apenas uma menção direta à prática de esporte, e outra ao exercício de tocar violão. Parece que eles se contentam com ouvir música e assistir esporte na TV, confortavelmente instalados em suas casas. Por sinal, número significativo de desenhos reitera uma mesma visão de mundo. O espaço da família e da “galera” é associado a valores positivos como alegria, sinceridade, dignidade, paz. Porém, o “mundo lá fora” é relacionado com egoísmo, falsidade, maldade, violência, competição tresloucada. As incertezas e os medos embaçam as expectativas de futuro dos autores desses mapas. A presença insidiosa de discursos trágicos sobre os perigos da contemporaneidade acende um farol vermelho, porque o sonho é mais mobilizador e transformador do que o medo. A visão positiva do futuro é uma vacina contra o niilismo e contra a busca pelos jovens do prazer a qualquer custo, sem medir os limites. Ao invés de falar o tempo todo sobre riscos e exigências, devemos persuadi-los de que o acolhimento e a generosidade são atitudes essenciais para gerar relacionamentos mais diversificados na escola, na família, na sociedade.
Enfim, esses meninos e meninas, prestes a sair pra vida, experimentam um processo que, na falta de expressão melhor, eu chamarei de “implosão do espaço vivido”. O mapa elaborado por Luana, reproduzido acima, é emblemático: os lugares encolheram, Minas virou um ovo, as relações interpessoais são excessivamente compartimentadas e restritas, as cidades derreteram, os concidadãos ficaram invisíveis. Resta o consolo de que a Minas Gerais desses garotos tem mar.
Tanto para esses garotos como para seus pais e professores, será de bom proveito refletir sobre seus espaços de vivência cotidiana na adolescência, sem nostalgias ou recriminações, com o firme intento de dialogar, de identificar os contrastes, de avaliar o que havia de bom no passado, os riscos e as vantagens de hoje e as promessas de que o futuro anda bastante grávido. Para incitar essa conversa, coloco aqui pequeno texto memorialístico que publiquei num jornal da cidade, dez anos atrás (ver texto Trens da memória).
Por Marcos Lobato Martins, 24 de fevereiro de 2008. 6 Comentários

em fevereiro 27th, 2008 às 17:43
Marcos,
duas coisas vieram-me à tona quando li seu texto. A primeira, mais imediata. Na semana passada, Gilberto Dimenstein (com quem nem sempre concordo) escreveu na Folha de São Paulo sobre uma pesquisa que mostrava que jovens de classe média, que se tornavam traficantes, tinham maior facilidade de abandonar o vício e o crime quando se envolviam com a faculdade e a perspectiva de emprego e família – ou seja, o sonho tem capacidade mobilizadora, sim!
Segundo aspecto: nas minhas leituras sobre cidade (você que me chama de urbanóide convicto), encontrei-me com o conceito de lugar/não-lugar; este é o espaço urbano que não tem significação; um dos autores que trabalha isto (Richard Sennett) insiste no fato de que ônibus e trens têm bancos todos voltados para o mesmo lado (eu sei que em alguns casos há exceções), e que raramente atentamos para o caminho que nosso transporte (individual ou coletivo) faz. Outro exemplo dele são as autobahns alemãs, fantasticamente iguais: pistas largas, arborizadas, sem paisagem ou vida alheia à estrada. Penso na minha experiência em São Paulo: as estações do metrô funcionavam como espécies de oásis, em torno dos quais eu conhecia a cidade. Por isso me obrigava a andar de ônibus vez em quando, para ver a cidade lenta, confusa, fedorenta e maravilhosamente real que existia sobre os túneis limpos e eficientes…
em fevereiro 29th, 2008 às 16:35
Marcos,
Sou sua aluna no Sebrae e gostei bastante do seu texto, não concordo com algumas coisas mas concordo plenamente com outras. Na minha opinião você observou detalhes que as vezes a propria vida de uma pessoa que estuda 10 horas por dia passa. A gente se preocupa somente com a escola, uma exemplo é na nossa rotina nós chegamos da escola temos um monte de tarefas para o dia seguinte, sentamos realizamo-as e ja esta na hora de dormir. Pronto acabou o dia. E ai onde fica o contato com o mundo e com as pessoas que amamos mais?
em fevereiro 29th, 2008 às 16:45
Na minha opinião, nao dá para definir apenas pela observação de um desenho o que é a vida de uma pessoa, ou quais são seus valores, claro, da para ter uma idéia, afinal é algo pessoal. Por outro lado, a nossa vida e muito grande para ser retratada em um desenho, deve ser por este motivo que o meu desenho ficou ridículo (eu admito), são tantas coisas para retratar… e mais uma coisa, eu percebi que você julgou a turma toda com referência em alguns desenhos que você selecionou. Bem, eu penso que somos no mínimo diferentes na forma de pensar, podemos ter algo em comum, como nosso cotidiano por exemplo, mais penso que somos muito capazes de ter personalidade própria. Sou aluna do terceiro ano de SEBRAE-PL. PS* gostei muito da desenvoltura do seu texto, de ver como você escreve bem, e de alguns pontos de vista. Até segunda!
em setembro 14th, 2008 às 23:35
Marcos,
Ao ler esse texto me lembrei de uma palestra do prof Wanderley Geraldi, numa ocasião em que ele proferiu uma palestra sobre a pesquisa na Escola. Embora o objeto dele tenha sido a escrita ao analisar o processo de escrita de uma turma de 1ª série do Ensino Fundamental, ele realçou para a turma de Pedagogia da Fafidia que a pesquisa se faz cotidianamente… e que a ação do professor deve pautar-se essencialmente em ser “professor pesquisador”… pelo que sei de você, isso é característico na sua atuação.
Bem, gostaria de te informar que vou encaminhar esse texto seu ao curso citado e a alguns alunos da Fafidia que estão cnstruindo projetos de pesquisa…
Adorei esse trabalho!!!
Abraços
Dayse Lúcide
em janeiro 26th, 2010 às 10:59
esse desenho e lindo
em dezembro 24th, 2010 às 17:31
Minas Gerais é um OVO . uahsuahsuahs