Lula, os números do INPE e a devastação da Amazônia

O Governo Brasileiro comemorou, no ano de 2006, a divulgação de números do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que anunciaram a redução da área desmatada na Amazônia brasileira. A imprensa internacional e as ONGs ambientalistas também comemoraram os dados referentes ao período. Todavia, o clima de festa reverteu-se completamente nas duas últimas semanas de janeiro corrente. As ONGs, principalmente o Greenpeace e a Amigos da Terra, voltaram a denunciar a falta de ação do governo Lula, que favorece, novamente, a ampliação do processo de derrubada da floresta. A imprensa internacional, por sua vez, publicou notícias fortes, com títulos de impacto, chegando a acusar o Brasil de tentar enganar a opinião pública mundial sobre a situação real da Amazônia.

Áreas devastadas na Amazônia
Áreas devastadas na Amazônia

Tudo isso decorreu da divulgação de dados fresquinhos do INPE sobre o período dos últimos cinco meses de 2007, obtidos pelo sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real). Segundo o INPE, a área desmatada na Amazônia alcançou a casa dos 7 mil quilômetros quadrados, nesse período. Número que equivale a 62% de todo o desmatamento verificado entre agosto de 2006 e julho de 2007. Dessa forma, ocorreu uma aceleração enorme do desmatamento após três anos seguidos de queda no ritmo de destruição da floresta. As reações contra os números do INPE não tardaram.

O próprio presidente Lula, em pronunciamento numa reunião no Itamarati, disparou contra o INPE. Falou bobagens do tipo: “Você vai no médico detectar porque você está com um tumorzinho aqui e, ao invés de fazer biópsia e saber como vai tratar, você já saiu dizendo que estava com câncer”. Com esta “metáfora clínica”, Lula procurou desqualificar os números do INPE. Mais do que isso, o presidente defendeu os produtores de soja, pecuaristas e sem-terra, afirmando: “A gente não pode culpar soja, feijão, gado, sem-terra, não pode culpar ninguém antes de investigar o que aconteceu. Por fotografia você tem apenas a imagem, você não tem o que aconteceu”. Ora bolas, então são os ETs que derrubam a floresta amazônica? Com essa boutade, nosso presidente livra a cara de todos os agentes que, historicamente, destroem a Amazônia, ao lado de mineradores e madeireiros. Faz carinho no lobbie do agronegócio e na base aliada de Mato Grosso, Rondônia, Pará, etc.

Aliás, o governador Blairo Maggi, de Mato Grosso, questionou publicamente os dados do INPE que mostram a aceleração do desmatamento. No dia 27 de janeiro, em entrevista no Estado de São Paulo, Maggi disse que o INPE estaria “mentindo a serviço de alguém”. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, também duvidou dos números do INPE. Então, segundo Lula, Maggi e Stephanes, o INPE disse bobagem! E a Amazônia não corre mais o risco que corria de ser degradada velozmente. Segundo o governador de Mato Grosso porque, em primeiro lugar, a consciência ambiental avançou muito entre os proprietários de terra da região; e, em segundo lugar, porque os mesmos proprietários estão descapitalizados no momento. Uai, desde quando botar fogo na floresta exige capitalização?

Para completar a encenação de mau gosto, o governador de Rondônia, Ivo Cassol, disparou contra a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, qualificando-a de “despreparada”. Disse mais: ela não teria tido humildade de ligar para ele e “pedir desculpas ao povo brasileiro e de Rondônia [pela divulgação dos dados] que são mentirosos”.

No dia 30 de janeiro, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, veio a público defender os dados do INPE sobre o desmatamento na Amazônia, relativos ao final de 2007. E alfinetou: “É curioso que, quando o INPE informava que o desmatamento estava caindo, ninguém questionava o dado”. No primeiro dia de fevereiro, cientistas de diversos centros de pesquisa do governo divulgaram carta em defesa do INPE. A carta foi assinada por 100 cientistas, de seis institutos e três universidades. Nela, eles dizem que pôr em dúvida a eficácia do Deter e “a lisura, a competência e a isenção do INPE (…) serve a ninguém mais que os desmatadores ilegais da floresta amazônica”. Os ataques de Lula, Maggi, Cassol, Stephanes e outros contra o INPE atingem diretamente a ciência brasileira, os cientistas do país, que produzem informações com rigor metodológico. Correspondem, portanto, a tentativa de “desmoralização oficial” da ciência. Quem está por trás disso, não temos dúvida: o agronegócio, os madeireiros e carvoeiros que, há décadas, derrubam ilegalmente a floresta amazônica.

Os historiadores, particularmente os praticantes da História Ambiental, devem aproveitar o momento para cerrar fileiras com seus colegas do INPE. Afinal, sabemos bem que, onde houve abertura e expansão da fronteira agrícola, desde o século XVI, o fogo e o machado lideraram o processo. A praticamente extinta Mata Atlântica é a prova disso. As lavouras derrubaram a mata e, depois delas, veio o gado. Assim foi com o açúcar e com o café. Na Zona da Mata nordestina, no Vale do Paraíba, no Oeste Paulista, na Zona da Mata Mineira, no Vale dos Rios Doce, Mucuri e Jequitinhonha (ver texto sobre Mineração, agricultura e degradação ambiental em Minas Gerais nos século XVIII e XIX). E o processo repete-se atualmente no Centro-Oeste e no Norte do Brasil, liderado pela soja, pecuária e extração ilegal de madeiras nobres.

No caso da Amazônia, o ciclo de destruição começa com a ação dos grileiros que, por meio da falsificação de títulos, “criam” propriedades em áreas da União, nelas derrubam madeira vendida para madeireiros ilegais e formam pastos para a pecuária extensiva. Em seguida, vendem essas terras para plantadores de soja ou milho, os quais injetam mais dinheiro no processo de ocupação da floresta. No tempo da ditadura militar, havia quem dizia em alto e bom som: “É a pata do boi que vai conquistar a Amazônia”. A historiografia sobre esses processos de “abertura de fronteira” é suficientemente rica para elucidar os mecanismos gerais da ocupação das matas brasileiras. Que os governos federal e estaduais fotografem, mapeiem, ouçam os agentes envolvidos: encontrarão, grosso modo, os mesmos processos que ocorreram no passado.

E de pouco adianta, no jogo de empurra entre presidente, governadores e ministros sobre o desmatamento, produzir às pressas, como fazem Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) e Marina Silva, estudos que concluem que os assentamentos rurais são ótimos preservadores da floresta, porque manteriam de 85% a 95% da mata em pé nos seus lotes – a lei permite desmate de 20% na Amazônia. Esses estudos caem no extremo oposto, qual seja: mitificar a agricultura familiar praticada pelos assentados, sugerindo que ela não degrada o ambiente. Um conto da carochinha com sinal invertido daquele que embala o agronegócio apenas complica a queda-de-braço política, enquanto a Amazônia desaparece debaixo das correntes de tratores, da moto-serra e do fogo. Como noutras áreas da ação governamental, também no caso das políticas públicas para o desenvolvimento regional da Amazônia vale a máxima: informação precisa é igual política eficaz.

Por Marcos Lobato Martins, 8 de fevereiro de 2008.  2 Comentários

2 respostas para ' Lula, os números do INPE e a devastação da Amazônia '

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  1. edicarla escreveu,

    em agosto 11th, 2008 às 19:31

    pq vcs não colocam a história da destruição da zona da mata

  2. vitor escreveu,

    em dezembro 28th, 2009 às 17:50

    eles nao devião faser isso

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