Guiana Francesa: encontro presidencial e atuação garimpeira

Nessa última terça, na cidade de São Jorge de Oiapoque, situada na margem francesa do rio de mesmo nome, que faz a divisa entre o Amapá e a Guiana Francesa, ocorreu o encontro dos presidentes Lula e Nicolas Sarkozy. Neste encontro, Brasil e França pretendiam estreitar suas relações em diversos campos, notadamente na área da defesa e na política internacional. Em plena Amazônia, além dos projetos de desenvolvimento regional – destaque para a construção da ponte sobre o rio Oiapoque, que permitirá a ligação direta entre Caiena e Macapá -, os dois presidentes também discutiram questões espinhosas. Uma delas é a imigração de brasileiros para o território ultramarino francês. A outra é o controle das atividades garimpeiras, que devastam áreas no sul da Guiana. Na medida em que envolvem milhares de brasileiros, essas duas questões, por mais que se tente escondê-las, representam travos amargos nas relações bilaterais.

Garimpo de Vila Nova no Amapá
Garimpo de Vila Nova no Amapá

A Guiana Francesa é um lugar distante, sobre o qual a ampla maioria dos brasileiros quase nada sabe. Acontece que ela possui, dentre seus 190 mil habitantes, cerca de 40 mil brasileiros. Gente que imigrou do Amapá, do Pará e do Maranhão em busca de melhores condições de vida. Mas que, ao chegar lá, não encontra o Eldorado prometido. Para a maioria dos imigrantes brasileiros, que está ilegalmente em território francês, resta a exploração, a discriminação e a severa repressão policial. Os brasileiros vivem em comunidades relativamente isoladas ao redor das cidades guianesas, trabalhando principalmente como serventes, pedreiros e empregadas domésticas. Recebem salários inferiores à média francesa e, quando são ludibriados pelos patrões, não têm como reclamar, temendo a deportação. Os habitantes da Guiana, especialmente os brancos, vêem os brasileiros como pessoas potencialmente ligadas à marginalidade e à prostituição.

Mesmo diante dessas dificuldades, a corrente migratória do Brasil para a Guiana Francesa não cessa. A razão é simples: os empregos na Guiana são remunerados na base do euro e, para quem consegue legalizar sua presença no território, há serviços públicos e benefícios atraentes, sobretudo se o padrão de comparação forem as condições de estados como o Maranhão e o Pará. Historicamente, a migração de brasileiros para a Guiana Francesa intensificou-se a partir dos anos 1960, graças a uma política oficial de provimento de mão-de-obra necessária para a construção do Centro Espacial em Kourou. Por outro lado, a mineração de ouro no sul da Guiana é bastante ativa, empregando significativo contingente de garimpeiros brasileiros.

Do lado oposto de São Jorge de Oiapoque, fica a cidade brasileira de Oiapoque, cuja renda resulta dos quiosques, bares e boates freqüentados pela população francesa e, também, dos dispêndios realizados pelos garimpeiros que cruzam a fronteira. As compras dos franceses e a movimentação do dinheiro do garimpo constituem as principais fontes de renda na área fronteiriça do Amapá com a Guiana. Referindo-se ao garimpo, o presidente francês, irritado, informou que desencadeará operação de combate à atividade, envolvendo mil militares e apoio aéreo. Segundo Sarkozy, os garimpeiros desrespeitam a soberania francesa e devastam a floresta. Mais uma vez, portanto, os mineradores brasileiros, cuja imagem é francamente negativa, estão no olho do furacão.

Na verdade, não é de hoje que os movimentos dos garimpeiros brasileiros geram inquietações enormes nas autoridades da Guiana Francesa. Até as primeiras décadas do século XIX, a planície costeira da Guiana foi ocupada economicamente pelos engenhos escravistas de açúcar (a escravidão foi abolida definitivamente na Guiana em 1848). No decurso do Oitocentos, essa faixa estreita do território recebeu também presídios (o primeiro instalado em 1852), para os quais foram enviados milhares de condenados franceses. O presídio da Ilha do Diabo talvez seja o mais famoso deles, eternizado no romance Papillon, escrito por Henri Charrière. Anteriormente, no início do século XIX, a Guiana sofreu invasão de exército luso-brasileiro, que a ocupou entre 1809 e 1817, numa retaliação ordenada por Dom João VI contra Napoleão, que invadira Portugal. Durante a presença dos luso-brasileiros, a rotina dos habitantes da Guiana conservou-se intacta. Entre Brasil e França, na segunda metade do Oitocentos, existiram disputas diplomáticas e militares girando em torno da demarcação de fronteiras. Nessas disputas, os garimpeiros e comerciantes de pedras brasileiros desempenharam papel proeminente.

A primeira corrida do ouro na Guiana Francesa teve como palco o sudoeste do território, mais precisamente a área do rio Inini, afluente do Alto-Maroni. Jazidas consideráveis de ouro foram descobertas em 1865, atraindo levas de garimpeiros provenientes das Antilhas. O auge da extração aurífera nessa região ocorreu entre 1910 e 1930. Já os garimpeiros brasileiros atuaram principalmente na região da margem esquerda do Oiapoque, a partir da década de 1880. A presença dos brasileiros atiçou a questão fronteiriça, há muito tempo mal resolvida pelo Tratado de Utrecht (1713). Um primeiro incidente de monta verificou-se em 1848. A lei de abolição da escravidão garantia que qualquer escravo que pisasse em solo da Guiana ficaria livre, o que causou fuga em massa de cativos brasileiros para aquele território. Grandes fazendeiros do Pará organizaram, então, uma expedição para recapturar 200 escravos fugidos em Mapa, violando o território francês. As disputas fronteiriças agravaram-se entre 1885 e 1900, em função da movimentação dos garimpeiros brasileiros. Em 1895, Caiena retaliou uma incursão de mineradores brasileiros na Guiana com ataque naval ao Amapá. A situação na linha fronteiriça disputada deteriorou, por causa da formação de “estados” rivais. Um deles, chamado República de Cunani, era integrado por garimpeiros e fazendeiros brasileiros. O outro era formado por colonos franceses, e chamado de República Independente da Guiana. No meio da mata, os combates dos grupos rivais se multiplicaram. De roldão, ouro e sangue misturaram-se. Os episódios dessa guerra amazônica forneceram o pano de fundo para o belo romance Saraminda, escrito pelo ex-presidente José Sarney, que hoje é senador pelo Amapá.

No livro Saraminda, José Sarney reitera os traços distintivos da “personalidade garimpeira” que escritores mineiros e baianos, desde a década de 1860, haviam atribuído aos pequenos mineradores (Os garimpeiros da ficção – as representações literárias mineiras do universo do garimpo de ouro e pedras preciosas). Assim, conforme a literatura nacional, o garimpo e o garimpeiro são iguais em toda parte, seja o Espinhaço Central ou o Alto Paranaíba (em Minas Gerais), a Chapada Diamantina (na Bahia) ou a bacia do Cunani (no Amapá). E invariáveis no tempo, do século XIX até o século XXI, movidos pelos códigos viris de honra e lealdade típicos da mineração e obsecados pelo sortilégio poderoso que seria o garimpo de ouro e diamantes.

A guerra e as disputas de fronteira foram resolvidas pela ação do Barão do Rio Branco, que colocou a questão sob arbitragem internacional. Em 1900, o Conselho Federal Suíço fixou a fronteira de Amapá e Guiana Francesa no rio Oiapoque e na cumeeira da serra de Tumucumaque, dando ganho de causa ao Brasil. O país recebeu 260 mil km2. Entretanto, como garimpeiro não lê tratado internacional, ainda hoje os mineradores brasileiros cruzam sem cerimônia a fronteira, irritando as autoridades francesas.
Nesse sentido, as áreas de floresta da Guiana Francesa, na fronteira com o Brasil e com o Suriname, têm suas histórias de ocupação (e devastação da mata e genocídio dos povos indígenas) ligadas indissociavelmente à mineração do ouro, aos deslocamentos erráticos do garimpo e ao modo rústico de vida dos garimpeiros. Algo que o território ultramarino francês compartilha com a região amazônica brasileira e que enfurece os ambientalistas e dá muita dor de cabeça às autoridades. Lula e Sarkozy têm, no garimpo amazônico, problema enorme bem debaixo de seus pés.

Por Marcos Lobato Martins, 15 de fevereiro de 2008.  4 Comentários

4 respostas para ' Guiana Francesa: encontro presidencial e atuação garimpeira '

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  1. Eliane Nogueira escreveu,

    em setembro 9th, 2008 às 00:54

    Há algum tempo leio sobre este território que sempre tive muita vontade de conhecer.Porém percebo infelismente que em se tratando de brasileira mesmo com 2 filhos 43 anos casada á 22,somos um povo que acolhe bem pessoas de todo o mundo que quando chega a nossa hora de conhecer um pedaço da terra alheia somos marginalizados,desprezados.Aí eu me pergunto é só o nosso País que tem problemas,garimpeiros,desmatadores de florestas,prostituta que digasse de passagem é a PROFISSÃO mais antiga do mundo?Será que os chefes de estado não perceberam até hoje que o Brasil,o brasileiro tem realmente ganancia porem em se tratando de mão de obra é sempre À nós que o mundo recorre,pois não temos medo de tempo ruim.
    Não tenho desejo nenhum de deixar meu País,o melhor lugar do mundo é aqui só queria mesmo saber como entrar legalmente nesta terra tão falada onde poderei encontrar meu povo que aí vive e saber se realmente vale a pena deixar esse paraiso para passar por tanta humilhação
    Atensiosamente

  2. ILDACY escreveu,

    em janeiro 29th, 2009 às 19:46

    tenhos,pesquisado sobre o garinpo de guiana francesa,achei bem interresanra,pois o meu marido decidiu vende tudo aqui em rondonia para a risca a vida no garinpo,eu nao acho uma boa ideia,e uma aria cheia de conflitos.Mais acima de tudo gosto muit da independecia guiana francesa.


  3. em novembro 24th, 2009 às 09:47

    A Guiana Francesa, há muito tempo, tem letígio com o Brasil. Historicamente, a França, desde o início do descobrimento do Brasil, contrabandeou Pau Brasil de nossas costas litorâneas,que o diga Jean de Lery, que veio ao Brasil,durante a ocupação do Rio de Janeiro por Villegaignon. Sonhavam com a França Antártica, sob a égide Calvinista. E, somos os invasores. É muita hipocrisia…

  4. RAYO DE LUAR DA SILVA SOUSA escreveu,

    em agosto 28th, 2011 às 12:18

    SOU RAYO SOU NAMORADA DE UM FILHO DE UM GARIMPEIRO QUE NO MOMENTO RESIDE EM GUIANA FRANCESA HÁ MUITO TEMPO ELE ESTA QUERENDO CONHECER O PAI QUE HÁ 25 ANOS QUE ELE NÃO O VER , GOSTARIA MUITO SE ALGUEM CONHECER O SENHOR BERNADO GOMES PESSOAS DO NASCIMENTO , APELIDO ”MARAQUEIO” AVISASSE QUE ELE ESTÁ A SUA PROCURA , MORO EM GOIANIA GO . SEU NOME É FARNCISCO PEREIRA DOS SANTOS NASCIONALIDADE MARANHÃO , CODO FILHO DE RAIMUNDA NONATA PEREIRA DOS SANTOS . POR FAVOR SE ALGUEM O CONHECER ENVIE INFORMAÇÕES PARA O E-MAIL rayo-jrlramigas@hotmail.com .

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