A crise do subprime virou crise financeira e ameaça virar recessão mundial

Há muito se sabe que a trajetória do capitalismo é marcada pela alternância de altos e baixos, pela presença de ciclos de crescimento e de retração/estagnação, as fases A e B de que tanto falam os historiadores econômicos. As crises econômicas são elementos indissociáveis da economia capitalista, e elas tendem a ficar mais agudas quanto mais o capitalismo abrange a superfície planetária e sofistica os mercados, especialmente os mercados financeiros. Basta comparar a virulência, em termos de destruição de riqueza e de impactos sociais negativos, que produziram, respectivamente, a “bolha das tulipas” (na Holanda do século XVII) e a Grande Depressão (nos Estados Unidos da década de 1930), para ver como as crises econômicas tendem a ficar potencialmente mais perigosas.

O perigo potencial crescente das crises econômicas também resulta, é claro, da ampliação do poder de contágio que elas têm, num mundo cada vez mais interligado – e interdependente – pelos fluxos de comércio e pelas transações financeiras. Se a crise, então, emerge num país central, ela pode transformar-se rapidamente num tsunami arrasador, envolvendo a economia mundial. Por outro lado, economistas e historiadores da economia têm mostrado, desde o século XIX – cuja referência basilar nesse assunto é Marx -, que as crises econômicas surgem em períodos de grande prosperidade, na esteira do afã crescente por lucros de empresas e investidores, num ambiente de frouxa regulação econômica nacional e internacional, no qual surgem “inovações financeiras”. As grandes crises da economia capitalista vicejam nos momentos de desmedida euforia – a “exuberância irracional” de que falava Mr. Greenspan -, quando os agentes econômicos e os governantes comungam de uma mesma fé cega: o mercado resolve tudo da melhor maneira possível e para benefício de todos.

Pois bem, já se passaram onze meses desde que um “dia muito ruim” na Bolsa de Xangai mostrou que algo não ia bem nas finanças mundiais. A instabilidade se instalou de lá para cá, acentuando-se nas últimas semanas. No epicentro do tremor que abala os mercados financeiros internacionais está a crise das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos. Essas hipotecas lastrearam numerosíssimas operações financeiras mundo afora, que agora geram perdas bilionárias em grandes bancos e seguradoras norte-americanos e europeus. A crise só não levou à falência uma série de instituições financeiras dos dois lados do Atlântico porque os bancos centrais dos Estados Unidos e da União Européia providenciaram enormes socorros, na forma de linhas de crédito emergenciais e da redução significativa de juros (caso do Federal Reserve). O governo americano costurou com o Congresso, liderado pelos Democratas, um pacote fiscal também bilionário para oxigenar a maior economia do planeta, combalida e ameaçando cair em recessão profunda. Conforme relatório recente do FMI, publicado em 30 de janeiro, a crise financeira já contaminou a economia real, na medida em que propiciará a redução das taxas de crescimento nos EUA, Europa e Japão. Enquanto isso, os economistas brasileiros discutem se o país está ou não “descolado” da crise no mundo desenvolvido, graças aos bons fundamentos de nossa economia e aos preços altos das commodities. Ora, a discussão é um tanto bizantina, beirando à patriotada, uma vez que inexiste compartimentalização na economia atual. O Brasil, assim como a China e a Índia, só não sofrerá bastante com a crise nos países centrais se esta não for dramática, isto é, profunda e demorada. Do contrário, seremos levados de roldão.

Penso que, na perspectiva do futuro, o mais importante é que as pessoas, tanto nos países em desenvolvimento quanto nos países de economia madura, discutam os problemas, cada vez mais inescapáveis, da regulação dos mercados. Mercados completamente livres produzem desastres um atrás do outro. Alguns ganham fortunas da noite para o dia, mas milhões sofrem horrores. O “turbocapitalismo” de hoje está ousado demais e sem nenhum controle. O escândalo da Enron, gigante de energia dos Estados Unidos, que estorou em dezembro de 2001, mostrou que há imoralidades gigantescas escondidas no sistema industrial sem controle externo. O sistema financeiro, altamente inovador, também opera praticamente sem controle externo – seja dos Bancos Centrais, seja das agora mais que desacreditadas agências de risco -, e sem controle interno, porque executivos e acionistas agem exclusivamente segundo o princípio do “maior lucro no menor tempo para maximizar os bônus, ainda que seja imoral ou arriscado demais”. Quando o mar está para peixes (grandes), os teóricos da economia, as celebridades do mundo corporativo e os grandes investidores insistem no discurso do “risco moral”. Dizem que as autoridades não deveriam ofertar capital barato para socorrer empresas ou fundos que especularam e se deram mal, porque isso premiaria quem especulou à larga e solaparia a credibilidade nas regras do jogo capitalista. Todavia, quando a crise chega, eles rapidamente abandonam esse discurso e, sem vergonha na cara, exigem socorro governamental para evitar a “quebradeira”. Monsieur Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, publicou artigo no Financial Times (reproduzido na Folha de São Paulo, em 1? de fevereiro), no qual afirma que só cortar os juros pode não ser suficiente para compensar a desaceleração econômica em curso; é preciso, segundo o FMI, um estímulo fiscal para elevar a demanda. “Um estímulo fiscal oportuno e bem dirigido (…) que sustente o consumo privado durante uma fase crítica”. Noutros termos, que os governos gastem para socorrer as empresas e as economias, porque “a inação eleva o risco de desfechos muito negativos”. Em silêncio, os ultraliberais aquiesceram. Eles ainda não conseguiram varrer os “entulhos” do keynisianismo!

Este é justamente o ponto. Lucros privados, prejuízos públicos. Os especuladores aprontam e os governos correm em seu socorro. Sem regras, o mundo das finanças é fábrica de crises que contaminam a economia real dos países. Durkheim falava dos “elementos contratuais subjacentes aos contratos”, referindo-se à necessidade de que “princípios” e “valores” embasassem os acordos entre os agentes sociais e econômicos. Ora, qual é a ética de “princípios” incorporada, e compartilhada, pelos operadores financeiros e investidores espalhados nos mercados mundiais? Durkheim é insuspeito de esquerdismo, de anticapitalismo. O mesmo se pode dizer de Ângela Merkel, a chanceler alemã, que tentou, sem êxito, arrancar dos mandatários do G8, na cúpula de junho de 2007, um “código de conduta” para os “hedge-funds”. Ou de Nicolas Sarkozy, o hiperativo presidente francês, que reagiu à atual crise financeira dizendo: “Houve perda de controle”.

A discussão será, sem dúvida, espinhosa. E precisa ser realizada com cautela. Todavia, essa mais recente crise, independente do tempo que ela dure, indica que não se pode cruzar os braços. A Política e a Sociedade deverão impor princípios aos mercados, especialmente aos mercados financeiros. Como afirmou Delfim Netto, é “evidente que o capitalismo (ou seja, o ‘mercado’) não sobreviverá sem a regulação derivada de um imperativo moral categórico, internalizado pelos agentes e reforçado pela obrigação legal imposta pelo Estado” (Folha de São Paulo, 30 de janeiro de 2008).

No plano da Sociedade, já se podem perceber sinais de que os negócios estão sendo (re)ligados com “causas”. Para grupos crescentes de consumidores, de associações diversas, incluindo ONGs, enfim, de pessoas dispersas pelo planeta, as “causas” passam a fazer parte da maneira como as empresas são julgadas. Mais e mais pessoas querem que as empresas deixem de ser organizações puramente voltadas para a produção e o lucro, exigindo delas responsabilidade sócio-ambiental. Dessa forma, por exemplo, não interessa apenas se determinada indústria de fármacos alcançou essa ou aquela rentabilidade, mas também seu comportamento social, medido a partir de indicadores como a gestão do acesso aos medicamentos por ela produzidos, sua política de preços, patentes e licenciamentos, os resultados das pesquisas que ela faz sobre doenças negligenciadas, etc. Algo similar ocorre com bancos: os clientes querem saber se eles fornecem créditos para quem destrói a natureza, ou utiliza trabalho degradante, lava dinheiro de grupos terroristas e narcotraficantes, realiza operações “pouco transparentes” nos mercados. À medida que crescerem as pressões deste tipo sobre as organizações econômicas, assistiremos o fim da separação entre economia e política, entre o mundo das “causas” e o terreno instrumental dos negócios. Para sobreviver, o capitalismo precisará tornar as empresas, industriais, comerciais e de serviços, mais permeáveis ao que se passa no mundo social.

Se esse futuro chegar, haverá mais planejamento e mais regulação (estatal e social) das organizações econômicas. Nesse caso, talvez as crises econômicas adquiram menor virulência.

Por Marcos Lobato Martins, 8 de fevereiro de 2008.  3 Comentários

3 respostas para ' A crise do subprime virou crise financeira e ameaça virar recessão mundial '

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  1. corinto andrade escreveu,

    em setembro 22nd, 2008 às 23:22

    É visão simplista, política e não científica. A toda crise do mercado há sempre a presença direta ou indireta do Estado, como agora.

  2. Mila escreveu,

    em novembro 22nd, 2008 às 21:32

    Vcs simplismente conseguiram transmitira a Crise Economica de uma forma facil de se entender. A matéria é muito boa!!! E foi de grande ajuda!

  3. Bruna escreveu,

    em abril 19th, 2009 às 16:13

    Corinto, não entendo como você pode afirmar que a visão é não científica. É fato que em toda crise do capitalismo encontramos a presença do Estado, porém não há uma questão mais científica do que essa. O debate intelectual entre o livre mercado e a intervenção governamental é antigo e ao mesmo tempo atual. O sistema financeiro liberal, a idéia da mão que tudo regularia na economia se contradiz ao observarmos que é IMPRESCINDÍVEL a presença do Estado para salvar essa Economia que jamais funcionaria por si só.As questões ambientais, as questões da regulação frouxa, as questões da ética degradada que predomina no sitema financeiro (temos o caso do Madoff como exemplo atual, porém não é de hoje que essas fraudes ocorrem) não são apenas políticas, são acima de tudo econômicas e sociais e são fundamentais para analisarmos o contexto desta crise econômica atual.

    Gostei muito do texto e na minha opinião, aborda os principais temas para que possamos entender a crise do subprime.

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