Patrimônio ambiental na região do carste de Lagoa Santa
Na primeira quinzena de janeiro, a região cárstica de Lagoa Santa, situada a cerca de 50 km de Belo Horizonte, recebeu a visita da Ministra do Turismo, Marta Suplicy, no dia 9, e o Embaixador da Dinamarca, Christian Konigsfeldt, virá no dia 13 de fevereiro. Ambos desejam conhecer a Gruta da Lapinha (Lagoa Santa) e a Lagoa do Sumidouro (Pedro Leopoldo), além de conferir o potencial que o turismo ecológico e cultural possui na região. A Ministra quer obter ajuda dos dinamarqueses para construir o Centro de Referência Espeleológica Dr. Lund e o Hall dos Primeiros Americanos.
Conhecida pelas grandes cavernas e repleta de sítios arqueológicos importantes para o estudo do povoamento inicial do continente americano, a região abrigou as pesquisas do Dr. Peter Wilhelm Lund (1801-1880), naturalista dinamarquês que viveu em Lagoa Santa entre os anos 1835 e 1880. Considerado o “pai da paleontologia” brasileira, Lund reconheceu mais de 800 sítios paleontológicos, escavou diversos deles, coletou mais de 12 mil fragmentos ósseos de mamíferos e enviou muito material fóssil para a Dinamarca. Restos humanos ele encontrou apenas em seis sítios. Na caverna do Sumidouro, em 1843, o naturalista desenterrou esqueletos de 30 indivíduos de “extraordinária idade”, misturados com restos de muitos animais extintos.
Essa descoberta, que se tornaria a mais destacada, levou Lund a aventar duas hipóteses ousadas para a época. A primeira dizia respeito à convivência do homem com a megafauna do Pleistoceno. Hipótese que contrariava o catastrofismo de Georges Cuvier (1769-1852), teoria que postulava que as regiões destruídas por catástrofes seriam repovoadas por novos organismos de aparência mais moderna e que estas espécies resultariam de criações mais recentes – o homem teria surgido no planeta somente na última dessas criações, justamente a descrita no Gênesis. A segunda hipótese de Lund é a de que havia algo peculiar na morfologia craniana da população humana pré-histórica de Lagoa Santa. Ele percebeu que a “raça americana” possuía crânios estreitos e pronunciado prognatismo facial, o que a diferenciava da “raça mongólica”.
Estudos recentes dos crânios desenterrados por Lund e amostras de crânios antigos de Lagoa Santa e outros sítios americanos, realizados por pesquisadores como J. F. Powell e W. A. Neves, confirmaram a hipótese do naturalista dinamarquês. A datação e o estudo do crânio de “Luzia”, esqueleto descoberto na Lapa Vermelha IV (Pedro Leopoldo) pela equipe chefiada por Annete Laming-Emparaire, em 1975, causou frisson na comunidade científica internacional e na imprensa. Com idade entre 11 mil e 11,5 mil anos atrás, Luzia era assemelhada aos australianos e africanos atuais, cuja morfologia craniana é negróide, e não ao tipo mongolóide (a que pertence os ameríndios).
Com base nessas evidências, Walter Neves e outros pesquisadores propuseram novo modelo explicativo do povoamento inicial da América. Ao invés da entrada de uma primeira leva de caçadores mongolóides de grandes mamíferos pelo extremo norte do continente, por volta de 11,4 mil anos atrás – o famoso modelo Clóvis –, teria ocorrido a entrada de dois estoques populacionais com morfologias cranianas diferentes, um não-mongolóide primeiro (por volta de 15 mil anos atrás), e outra absolutamente mongolóide depois. Assim, Luzia e o “homem de Lagoa Santa”, desenterrado por Lund, seriam integrantes desse primeiro componente biológico que colonizou a América.
Não é à toa que a região cárstica de Lagoa Santa permanece, desde os tempos de Lund até hoje, ocupando lugar destacado na paleontologia, arqueologia e geomorfologia. Cientistas do Brasil e do mundo visitam freqüentemente a área. Nela procuram indícios e dados para solucionar numerosas questões nesses campos do conhecimento. O que significa que, além da sua singular beleza, as paisagens do carste de Lagoa Santa têm enorme valor científico. Por isso, é necessário preservá-las. A criação da APA Carste de Lagoa Santa pelo IBAMA foi um passo importante, assim como a criação, há vinte e cinco anos, do Parque Estadual do Sumidouro. Entretanto, a falta de recursos e de vontade política emperra a efetiva existência dessas unidades de conservação. O avanço da mineração (extração de calcário e pedras ornamentais) e o crescimento desordenado nos municípios da região, especialmente Lagoa Santa, Matozinhos e Pedro Leopoldo, colocam em risco o patrimônio ambiental.
Espera-se que as visitas da Ministra do Turismo e do Embaixador da Dinamarca representem, de fato, a reversão desse quadro. Senão, logo não haverá gruta, paredão ou lagoa cárstica (ver texto) para apreciar, nem sítio arqueológico/paleontológico em condições de ser investigado.
Por Marcos Lobato Martins, 14 de janeiro de 2008. 1 Comentário


em dezembro 9th, 2008 às 15:24
Lobato,
eu, como filha da Cidade de Lagoa Santa, Historiadora e Conselheira do Parque Estadual do Sumidouro e da Apa Carste de Lagoa Santa espero que tal movimentação em torno da temática Peter Lund não fique somente nos noticiários e bastidores! Estou lutando muito para que a comunidade tome conhecimento e se conscientize da importância desta história e como pode ajudar no desenvolvimento sustentável da comunidade… A Cultura, a Educação são os caminhos para termos cidadãos mais conscientes, participantes e amantes de nossa Pátria! Atenciosamente Erika