Muitas estradas mineiras continuam traiçoeiras
Parece coisa de outra época, do tempo dos nossos avós ou bisavós. Mas acontece em Minas Gerais com maior freqüência do que pensamos. Trata-se de acidentes estranhos, bizarros, que julgamos mesmo inconcebÃveis. Cena de desenho animado, na qual o carro do vilão, ao atravessar uma ponte ou um trecho baixo de estrada, é levado pela água rio abaixo. Infelizmente, acontece demais em Minas. O último episódio desse tipo matou sete pessoas afogadas dentro de um jipe Sportage, quando o veÃculo retornava de um batizado na cidadezinha de AraçaÃ, região central do estado, a 108 km de Belo Horizonte. Na hora do acidente, chovia muito. Mesmo assim, o motorista do carro decidiu atravessar o Córrego do Prata num vau na estrada de terra, em Carvalho de Almeida, zona rural de AraçuaÃ. A água subiu de repente, arrastando o veÃculo, que levava treze pessoas, por 50 metros. A população do pequeno municÃpio ficou chocada, e o prefeito decretou luto de três dias. No velório coletivo das vÃtimas, o comércio local fechou.
Eu conheço Araçaà e Carvalho de Almeida, onde há estação da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil. Consigo imaginar o horror que tomou conta da população. Também conheço outra pequena cidade no Vale do Jequitinhonha, Chapada do Norte, a 36 km de Minas Novas, que viveu evento igualmente trágico no ano de 2004. Uma caminhonete, levando de volta para o distrito de Boa Vista moradores que fizeram compras na sede municipal, tentou atravessar a ponte sobre o Rio Capivari, que já estava coberta pela água. No meio da ponte, o veÃculo saiu do trilho e tombou nas águas com forte correnteza. Oito ou nove pessoas morreram. O clima de tristeza alcançou Diamantina, em cuja Faculdade de Filosofia e Letras eu lecionava, então, para vários estudantes de Chapada do Norte.
No inÃcio dos anos 2000, um ônibus que ia de Congonhas do Norte para Conceição do Mato Dentro, quando se aproximava do destino, tombou sobre uma ponte parcialmente danificada pouco antes pela cheia do córrego, causando a morte de mais de uma dezena de passageiros.
Os moradores mais antigos do interior mineiro têm muitas histórias desse tipo para contar. O que elas refletem, invariavelmente, é a precariedade das estradas vicinais de Minas Gerais. A maioria delas são pouco mais do que trilhas de burros: não possuem pavimentação, sinalização indicativa, pontes sólidas. Expõem seus usuários a desconfortos e perigos absolutamente evitáveis e inaceitáveis. Ainda hoje centenas de sedes municipais só podem ser acessadas por estradas de terra, praticamente intransitáveis na época das chuvas. Essas “picadas”, que os prefeitos e governadores insistem chamar de estradas, são indÃcios de que, em Minas, as permanências são, de fato, seculares! Na polÃtica, nos costumes, no sistema viário… Se os tropeiros do século XIX e inÃcio do século passado de vez em quando morriam na travessia de vaus de estradas, eles que desenvolveram um saber complexo sobre os ambientes regionais, imagine-se os perigos que correm os motoristas de hoje, que não conhecem bem por onde andam e superestimam a força de seus veÃculos (veja texto sobre as estradas de Diamantina no perÃodo 1870-1930).
Para evitar essas mortes absurdas, não há outra coisa a fazer senão investir nas estradas vicinais mineiras. Afinal, os mineiros têm ou não têm o direito de ir e vir, previsto na Constituição? O atual governo, aliás, tem feito isso. O programa que melhora (e pavimenta) a ligação de sedes municipais com as estradas-tronco é uma das boas iniciativas do Palácio da Liberdade.
Por Marcos Lobato Martins, 23 de janeiro de 2008. 1 Comentário

em julho 1st, 2008 às 19:02
Concordo que as estradas vicinais precisam de pavimentação e melhorias, mas eu ainda acho que deveriam investir no resgate das estradas de ferro. Não qual será o doido do polÃtico que lançará esta base de campanha, mas certamente teria o meu apoio.
O acidente perto de Araçaà foi terrÃvel e inconcebÃvel! E aquela ponte (que não é ponte) em Jequitinhonha? Num dia que estava lá, vi um caminhão que tombou da balsa dentro do rio! Um absurdo a história da construção daquela ponte estreitÃssima para não passar carro.
Ah, os sertões de Minas e suas histórias, tão reais que parecem lendas.
Abraços,