Helvécio Ratton e os causos populares mineiros

O último filme do diretor mineiro Helvécio Ratton recolhe e coloca na tela grande algumas histórias populares, ouvidas com pequenas variações nas mais variadas cidades do interior do estado. Exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, em 2007, e, recentemente, no Festival de Tiradentes, Pequenas Histórias conta com a participação de atores como Marieta Severo, Paulo José e Patrícia Pillar.

O diretor, nascido em Divinópolis, é conhecido das platéias nacionais por filmes como Dança dos bonecos, Menino maluquinho (inspirado no personagem criado pelo cartunista Ziraldo), Amor & Cia. (adaptação do clássico “Primo Basílio”, de Eça de Queirós), Uma onda no ar (que narra a trajetória da Rádio Favela, emissora comunitária criada numa favela de Belo Horizonte) e Batismo de sangue (versão cinematográfica do livro de Frei Beto, sobre a repressão aos frades beneditinos durante os anos de chumbo do autoritarismo militar). Quando me mudei para Diamantina, em meados dos anos 1980, Ratton acabara de filmar Dança dos bonecos, filme que, segundo ele próprio, foi resultado de sua visita a Biribiri, o lugar entre as serras, a 13 km da cidade, que abriga as instalações de uma antiga fábrica de tecidos. Impressionado com a beleza daquele cenário, Ratton criou o roteiro desse filme e, na sua realização, empregou atores não-profissionais locais. A Dança dos bonecos é uma fábula cinematográfica tocante, que enche a tela por causa da paisagem ruiniforme dos arredores de Diamantina que lhe serve de cenário. Quando o filme ficou pronto e foi exibido na cidade, não se falava de outra coisa. Os moradores ficaram orgulhosos, justamente orgulhosos.

Mas voltemos ao filme Pequenas Histórias. A trama é simples. Marieta Severo é a contadora de história que, enquanto costura uma colcha de retalhos, desfia causos populares. Entre eles, estão o conto que fala do casamento da Iara mãe d’água, a história do coroinha com medo da procissão dos mortos, a do Zé Burraldo, etc. O filme procura ressaltar o ato de “contar” histórias, isto é, os recursos variados que os contadores de histórias dispõem para prender a atenção do ouvinte. A câmara está mais preocupada com o “narrador” do que com as narrativas. A crítica especializada recebeu o filme com frieza, porém, o público infanto-juvenil gostou. Para os críticos, Pequenas Histórias é bem intencionado, afetivo, daria um bom especial televisivo de fim de ano.

O que me importa é que Pequenas Histórias contribuirá para revalorizar as narrativas populares do interior de Minas Gerais e do Brasil. Chamará atenção para a riqueza do imaginário da gente interiorana, e para a necessidade de que esse imaginário seja registrado e estudado, tanto pelos artistas quanto pelos historiadores e cientistas sociais. Afinal, mais do que narrativas bizarras, engraçadas, tristes ou assustadoras, os “causos populares” constituem vias de acesso privilegiadas ao âmago da cultura do Brasil pré-industrial. Luís da Câmara Cascudo sabia disso. Gilberto Freyre também.

A propósito, sobre os fantasmas – que aparecem destacadamente no filme de Helvécio Ratton – o escritor de Apicucos escreveu livro saboroso, que veio a público em 1951, dedicado inteiramente ao tema do sobrenatural no passado de Recife. O livro Assombrações do Recife Velho resultou de vinte anos de interesse de Freyre pelos fantasmas. Como diretor do jornal A Província, Freyre encarregou seu repórter policial de investigar casas mal assombradas e casos de assombrações. Também recolheu os casos contados por velhos e jovens da cidade. Assim, Assombrações do Recife Velho, mais do que uma crônica do Recife, configura uma forma de abordagem da “história íntima” da cidade, na perspectiva que hoje está associada ao que se convencionou chamar de história do imaginário.

Quando vivi em Diamantina, ouvi numerosas histórias de assombrações. Algumas delas foram recolhidas por Aires da Mata Machado Filho, num livreto intitulado Dias e noites em Diamantina: folclore e turismo, de 1972. Uma vez, ao voltar para a cidade de ônibus, uma velha senhora, que pegara o carro na altura de Riacho dos Ventos, lugarejo situado bem no pé da Serra do Espinhaço, sentou-se na poltrona atrás de mim e começou a resmungar. Ela dizia que havia muito sofrimento em Diamantina, muita assombração de garimpeiros, escravos e senhores vagando sem paz, e que isso atrasava a cidade. Enquanto todo esse sofrimento, que vinha de antanho, não fosse expiado, Diamantina não conseguiria se desenvolver. Bati no ferro do ônibus três vezes!

Curiosamente, na virada do século XIX para o século XX, os jornais diamantinenses publicaram a rodo notícias sobre assombrações que apareceram na cidade e noutros lugares de Minas e do Brasil (ver texto sobre assombrações em Diamantina). Isso incomodou Joaquim Felício dos Santos, o maior luminar da cultura e da política oitocentista da cidade, que se deu ao trabalho de redigir uma série longa de artigos para mostrar o absurdo dessas coisas. Trata-se de Os invisíveis, texto composto de onze artigos publicados postumamente entre 10 de março e 19 de maio de 1907, no periódico A Idea Nova. Nesses artigos, o Senador Felício dos Santos (autor da conhecida Memórias do Distrito Diamantino) procurou demonstrar que os fantasmas seriam meras ilusões que atemorizam espíritos ignorantes ou ingenuamente crédulos. Contudo, o fato de que ele pensou recorrer aos jornais para desacreditar as histórias de fantasmas é sinal de que nem todos, na cidade de Diamantina, compartilhavam de sua convicção.

Por Marcos Lobato Martins, 30 de janeiro de 2008.  4 Comentários

4 respostas para ' Helvécio Ratton e os causos populares mineiros '

Receba os comentários com RSS ou TrackBack to ' Helvécio Ratton e os causos populares mineiros '.


  1. em agosto 10th, 2008 às 15:33

    Eu achei interessante essa história desse escritor!mas não chega ao centro da minha pesquisa!
    Muito obrigada!Fernanda

  2. Eduardo Lima escreveu,

    em outubro 31st, 2008 às 07:51

    Fui ao cinema com os meus alunos. Eles amaram
    o filme: PEQUENAS HISTÓRIAS. Direção atores e pro-
    dução estão de parabéns.Chega de tanta violência,
    a vida precisa ser mais reflexiva e não sensacionalista.

  3. Dayse Lúcide escreveu,

    em fevereiro 21st, 2010 às 11:43

    Querido Amigo Marcos,
    Escrevo para te dizer que vou inserir (devidamente citado) esse seu texto num material didático que escrevo, nesse momento, para a Unimontes, ok?
    Grande abraço cheio de saudades!!
    Dayse Lúcide

  4. Jairo Roberto escreveu,

    em janeiro 8th, 2011 às 16:32

    Assisti o filme pela tv brasil por 2 vezes em canais distintos da parabolica. Sou detalhista quando assisto filmes e notei algumas irregularidades apresentadas nos causos. No causo do Zé Burraldo, ele abre um lanche para comer e o pão é do tipo francês de padaria quando na roça o pão é do tipo feito em casa. Também quando ele quer arranjar lenha para o fõgão de lenha, postado e pendurado na parede seguro por um prego, um serrote cujo modelo moderno se distôa de um casebre na roça. Lembrando quer lenha se apanha em feixes ou se corta com auxílio de machado. Zé Burraldo sobe numa mangueira para cortar um galho quando cai na trapalhada cena.
    Um fogão de lenha nunca se apagou e também nunca vi um fogão delenha com apenas uma chaleira na chapa. Os diretores deveriam cuidar mais dos minimos detalhes pois pra gente do mato, fica uma coisa muito estranha.

Escreva um comentário


 
 

Nuvem de tags